“Aquele para quem o tempo é como a eternidade e a eternidade é como o tempo livre está de qualquer conflito.”
Jakob Böhme (1575-1624)
(…) À luz do que sabemos a respeito da essência do zen, trata-se também aqui de uma concepção central de inigualável singularidade. Essa estranha acepção é designada pelo termo satori e pode ser traduzida por “iluminação”. “Satori é a ‘raison d’être’ [a razão de ser] do zen, e sem o satori não há zen”, afirma Suzuki. Creio que não é muito difícil para a mente ocidental captar o que um místico entende por “iluminação” ou o que é conhecido como tal na linguagem religiosa. Satori designa uma forma e um caminho para a iluminação, que é quase inacessível à compreensão do europeu.
(…) “Uma vez libertados da falsa concepção de si-mesmo, temos de despertar nossa mais íntima e pura sabedoria divina, chamada pelos mestres do zen a mente de Buda (Mind of Buddha) ou Bodhi (o conhecimento pelo qual o indivíduo experimenta a iluminação) ou Prajna (suprema sabedoria). É a luz divina, o céu interior, a chave de todos os tesouros do espírito, o ponto central do pensamento e da consciência, a fonte de onde brotam a força e o poder, a sede da bondade, da justiça, da compaixão e da medida de todas as coisas. Quando este conhecimento interior é plenamente despertado, estamos aptos para compreender que cada um de nós se identifica em espírito, essência e natureza com a vida universal ou Buda; que cada um de nós recebe a graça transbordante do Santo Ser (Buda); que ele suscita nossas forças morais, abre nossos olhos espirituais, desenvolve nossas capacidades, comunica-nos uma missão, e que a vida não é um mar de nascimentos, de doenças, de velhice e morte, nem um vale de lágrimas, e sim o templo santo de Buda, ‘a Terra Pura’ (Sukhavati, a terra da bem-aventurança), onde poderemos gozar as delícias do Nirvana. Então nosso espírito será totalmente transformado. Já não seremos perturbados pela cólera e pelo ódio, nem feridos pela inveja e pela ambição, nem incomodados pelas preocupações e cuidados, ou atormentados pela tristeza e pelas dúvidas”.
(…) O zen é tudo, menos filosofia no sentido ocidental da palavra.*
*NUKARIYA, K. The Religion of the Samurai, 1913, p. 133
*”O Zen não é psicologia, nem filosofia”. SUZUKI, D.T. Essays in Zen Buddhism, II, op. cit., p. 84. / cit., p. 133.
(…) um mysterium ineffabile (…)
O indivíduo tem aqui a impressão de tocar, por assim dizer, num verdadeiro mistério e não em algo apenas imaginad pretendido. Isto é, não se trata de um segredo mistificador e sim de uma experiência viva que bloqueia qualquer linguagem. O satori nos atinge de novo, como algo que não esperávamos.
(…) Também é compreensível que Jacob Böhme num relance de olhos tenha penetrado no centrum naturae (coração da natureza) através de um raio de sol refletido num disco de estanho.”
JUNG, C.G. Psicologia e Religião Oriental,OC. Editora Vozes. 2011. Pág. 77-80.
Prefácio à obra de Suzuki: A Grande Libertação

