A existência só se realiza na vita composita

“Catão: numquam se plus agere quam nihil cum ageret, numquam minus solum esse quam cum solus esset – ‘Nunca ele está mais ativo do que quando nada faz, nunca está menos solitário do que quando a sós consigo mesmo”

(…)

A existência humana só se realiza na vita composita, a saber, na atuação conjunta da vita activa e da vita contemplativa. Assim ensina Santo Gregório: Quando um bom programa de vida exige que se passe da vida ativa à contemplativa, é frequentemente útil que a alma retorne da vida contemplativa à ativa, de tal modo que a chama da contemplação desperta no coração entregue toda sua plenitude à atividade. Assim, a vida ativa deve nos levar à contemplação, mas a contemplação nos convoca de volta à atividade.”

HAN, Byung-Chul. Vita Contemplativa, ou sobre a inatividade. Ed. Vozes, 2023, Local 1444-1449.

O Pathos da ação

A obrigação de atividade

“A obrigação de atividade, produção e desempenho leva à falta de ar. O ser humano se sufoca em seu próprio fazer. Só na reflexão as coisas se tornam “espaçosas, arejadas em torno do ser humano”

HAN, Byung-Chul. Vita Contemplativa, ou sobre a inatividade. Ed. Vozes, 2023, Local 707.

Da ação ao ser

O pensar não é pura atividade

“Também o pensar não é pura atividade e espontaneidade. A dimensão contemplativa que nele habita o transforma em um corresponder. Ele corresponde àquilo que “se dirige a nós como voz [Stimme] do ser”, ao se deixar de-finir por ela. Pensar significa “abrir nossos ouvidos”; ou seja, escutar e ouvir atentamente. Falar pressupõe escutar e corresponder: “Philosophia é o corresponder verdadeiramente consumado que fala enquanto atenta ao chamado do ser do ente. O corresponder ouve a voz do chamado.”

HAN, Byung-Chul. Vita Contemplativa, ou sobre a inatividade. Ed. Vozes, 2023, Local 646.

Da ação ao ser

A disposição precede toda atividade

“A disposição nos abre o espaço unicamente no qual nos confrontamos com um ente. Ela desvela o ser. Não podemos dispor da disposição. Ela nos toma. Não é possível produzi-la voluntariamente. Antes, somos lançados nela. Não a atividade, mas o estar-lançado [Geworfenheit] como passividade ontológica originária define nosso ser-no-mundo originário.

A disposição precede toda atividade e é, ao mesmo tempo, definidora para ela.

Toda ação é, sem que sejamos conscientes disso, um agir definido. A disposição constitui, então, o quadro pré-reflexivo para atividades e ações.”

HAN, Byung-Chul. Vita Contemplativa, ou sobre a inatividade. Ed. Vozes, 2023, Local 640-644.

Da ação ao ser

Acontecimento inconsciente

Na espera, ele se entrega ao “acontecimento inconsciente”. Visto pelo lado de fora, ele é inativo. Mas essa inatividade é a condição de possibilidade da experiência.

A espera começa quando já não se tem nada de determinado em vista. Quando esperamos algo determinado, esperamos menos e nos fechamos ao acontecimento inconsciente: “a espera começa quando não há mais nada aí pelo que se espere, nem mesmo pelo fim da própria espera. A espera ignora e destrói aquilo que espera. A espera não espera nada”. A espera é a postura espiritual de quem está inativo e contemplativo. É-lhe revelada uma realidade inteiramente diferente, à qual nenhuma atividade, nenhuma ação, tem acesso.”

HAN, Byung-Chul. Vita Contemplativa, ou sobre a inatividade. Ed. Vozes, 2023, Local 202-203.

Considerações sobre a inatividade