Fazer de si mesmo um idiota

“De acordo com Deleuze, a filosofia decola com um faire l’idiot [fazer de si mesmo um idiota]. Não é a inteligência, mas um idiotismo que caracteriza o pensar. Todo filósofo que produz um novo idioma, um novo pensar, uma nova linguagem, é um idiota. Ele se despede de tudo o que foi. Ele habita esse patamar imanente do pensar virgem, ainda sem descrição. Com faire l’idiot, o pensar ousa saltar para o completamente outro, para o não acontecido. A história da filosofia é uma história de idiotismos, de saltos idiotas: “O velho idiota queria evidências a que ele chegasse por si mesmo: enquanto isso ele duvidava de tudo […]. O novo idiota não quer nenhuma evidência […], ele quer o absurdo – isso é um quadro completamente diferente do pensar”. A inteligência artificial não é capaz de pensar, porque não é capaz de faire l’idiot. Ela é inteligente demais para ser uma idiota.”

HAN, Byung-Chul. Não coisas: Reviravoltas do mundo da vida. Ed. Vozes, 2021, Local 724.

Inteligência Artificial

Só o silêncio nos torna capazes de ouvir

“Só o silêncio nos torna capazes de ouvir algo inaudito. A obrigação de comunicar, em contrapartida, leva à reprodução do igual.

A dificuldade hoje não é mais a de não podermos expressar livremente nossa opinião, mas a de conseguir espaço livre para a solidão e o silêncio nos quais possamos encontrar algo para falar. Forças repressivas não nos impedem mais de manifestar nossa opinião. Pelo contrário, elas até mesmo nos obrigam a tanto. Como é libertador não ter de dizer algo e poder silenciar-se, pois apenas então temos a possibilidade de criar algo cada vez mais raro: algo que realmente vale a pena ser dito*.”

*DELEUZE, G. Mediators. Negotiations. Nova York, 1995, p.

(…)

“Apenas os espaços livres da inatividade nos dão a possibilidade de criar algo cada vez mais raro: algo que realmente vale a pena ser feito. A inatividade é, então, o limiar de um feito inaudito.

A obrigação de agir e, mais ainda, a aceleração da vida se mostram como um meio eficaz de dominação. Se hoje nenhuma revolução parece mais ser possível, talvez isso seja porque não temos tempo para pensar. Sem tempo, sem uma inalação profunda, segue-se repetindo o igual.

Como falta tempo para pensar e tranquilidade no pensar, as pessoas não mais ponderam as opiniões divergentes: contentam-se em odiá-las. Com o enorme aceleramento da vida, o espírito e o olhar se acostumam a ver e julgar parcial ou erradamente, e cada qual semelha o viajante que conhece terras e povos pela janela do trem. Uma atitude independente e cautelosa no conhecimento é vista quase como uma espécie de loucura, o espírito livre é difamado*.”

*NIETZSCHE, F. Humano, demasiado humano. São Paulo: Companhia de Bolso, 2017, aforismo n. 282.

HAN, Byung-Chul. Vita Contemplativa, ou sobre a inatividade. Ed. Vozes, 2023, Local 297-308.

Considerações sobre a inatividade