Franco-maçonaria e egiptomania no século das Luzes

“Estamos agora na França de Luis XVI (1774-1791). Nessa época, também chamada de Século das Luzes, as mentes em ebulição desenvolveram duas maneiras de conceber o mundo. De um lado, os enciclopedistas, com Diderot e d’Alembert, tentam racionalizar o conhecimento. A Encyclopédie, ou Dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers, publicada de 1751 a 1772, realiza um estudo sistemático dos diferentes ramos do saber, das técnicas e das artes reconhecidas na época. (…). De outro lado, esse Século das Luzes é apaixonado pelo irracional e pelo ocultismo em todos os seus aspectos. Nunca se publicou tanto sobre a alquimia, a magia e a cabala. Desenvolveram-se práticas de magia, de invocação de espíritos e de magnetismo. As sociedades ocultistas tiveram um desenvolvimento sem equivalente na história. Como dissemos, a Inquisição já não exercia repressão na França, sobretudo porque esses movimentos envolviam as elites sociais. (…) O século XVIII é o século da busca do saber, mas também do prazer e da felicidade. Estamos distantes da época sangrenta dos Visconti, assombrada pela salvação após a morte.

Nesse período, a franco-maçonaria se tornou um fenômeno da moda. Vinda da Escócia (onde dignitários ricos a teriam criado no século XVII), depois da Inglaterra (onde a primeira Grande Loja data de 1717), sua presença, como já evocado, foi comprovada pela primeira vez na França em 1725. (…) Esses diversos movimentos têm um elemento invariável: a iniciação. Retomando a linguagem das corporações de ofício nesse caso, a dos construtores, os aprendizes tornavam-se companheiros. O grau de mestre só apareceu em Londres em 1725 e foi difundido na França a partir de 1730. Aparentemente, esses grupos maçônicos na França cultivavam uma nova forma de sociabilidade que não excluía os prazeres da mesa e da boa companhia: as reuniões entre irmãos costumavam ser precedidas por um banquete. Para um documento maçônico da época, tratava-se de uma instituição que inicialmente tinha como único objetivo permitir que seus associados desfrutassem das benesses de uma sociedade seleta, cujos prazeres tornavam-se mais pitorescos graças a um leve mistério”. (…) Cagliostro, que em 1785 exprimiu em suas memórias: “Não sou de nenhuma época nem de nenhum lugar, fora do tempo e do espaço, meu ser espiritual vive sua eterna existência. (…)

O conde Alessandro de Cagliostro viajou a Paris em 1775, 1781 e 1785 e logo encontrou seu lugar na alta sociedade parisiense e maçônica, lugar deixado livre por outro personagem misterioso e célebre, o conde de Saint-Germain. Nascido em Palermo, e 1743, com o nome de Giuseppe (Joseph) Balsamo, percorreu todas as capitais da Europa a partir dos anos 1760 e logo adquiriu uma reputação extraordinária: alquimista e detentor da pedra filosofal, dizia-se adivinho, em comunicação com os anjos, mas também com os demônios. Em setembro de 1780, chegou a Estrasburgo com grande pompa e foi recebido pelo cardeal de Rohan, Conta-se que lhe apresentaram doentes graves da cidade e que ele os curou ministrando-lhes uma misteriosa behida. Ao chegar em Paris, onde o mesmo canfeal o recebeu novamente e lhe pagou uma soma considerável após o êxito de suas operações alquimicas, ele se especializou por certo tempo na venda de suas “pilulas egípcias e de outras pomadas e bebidas milagrosas, bem como de brochuras contendo conselhos e outras cabalas novas para ganhar na loteria e obter sucesso. Sucesso era algo que ele representava muito bem: o luxo de seus aposentos e de seu estilo de vida levantava dúvidas sobre a origem de sua fortuna diziam que era descendente de Carlos Martel ou ainda filho do diabo! Cabe dizer que sua grande especialidade era falar com os mortos: conta-se que era capaz de trazer Sócrates, Platão, Carlos Magno, Corneille e outros homens ilustres, que conversavam familiarmente com ele.

Nosso personagem reflete uma época em que se pratica a alquimia, a teurgia e o espiritismo. Nela se cultiva uma “nostalgia das origens, a da era de ouro de uma humanidade primitiva ao modo de Rousseau e de uma Antiguidade primitiva para além das normas culturais tradicionais, cristãs e greco-romanas. O homem primitivo dessa Antiquidade e representado como detentor de conhecimentos e poderes fora do comum, esquecidos pelo homem contemporâneo, mas que por ele poderiam ser reencontrados. E como o Egito antigo era a mais antiga civilização conhecida nessa época, também era visto como a civilização mais próxima dessa tradição primordial.”

NADOLNY, Isabelle. História do TarôUm estudo completo sobre suas origens, iconografia e simbolismo. Ed. Pensamento, 2022, pág. 145-146.

A mulher é o princípio

“Em todas as outras Escrituras, de todas as raças, é o macho, Jeová, Buda ou Brahma, quem cria o universo; na Magia das Bruxas, a mulher é o princípio primitivo. Sempre que há um período histórico de rebelião intelectual radical contra o conservadorismo estabelecido, a hierarquia e coisas do gênero, há sempre um esforço para tratar da mulher como potencialmente igual, o que vale dizer, o sexo superior. Assim, na extraordinária guerra dos elementos conflitantes, estranhas escolas de magia, Neoplatonismo, Cabala, cristianismo hermético, gnosticismo, magia persa e no dualismo, com os resíduos das antigas teologias grega e egípcia nos séculos III e IV em Alexandria, e na Casa de Luz no Cairo do Século IX, a igualdade da Mulher era uma proeminente doutrina. Terá então sido Sofia ou Helena, a alforriada, o verdadeiro Cristo destinado a salvar a humanidade.”

“N.T.: Sofia, a Mãe da Sabedoria, é conhecida pelos gnósticos como a geradora do deus do Antigo Testamento, e a mesma, foi quem interveio contra a destruição que ele causava tornando-a a primeira intercessora dos homens e mulheres humanos.”

LELAND, Charles G. Aradia.O Evangelho das Bruxas, 2019, Pág. 150.

Onde tudo se torna calculável, a sorte desaparece

“Onde tudo se torna calculável, a sorte desaparece. A sorte é um evento que ilude todos os cálculos. Existe uma conexão íntima entre feitiçaria e sorte. A vida calculável e otimizada é sem magia, ou seja, sem sorte.”

HAN, Byung-Chul. Não coisas: Reviravoltas do mundo da vida. Ed. Vozes, 2021, Local 1547.

Um excurso sobre o Jukebox

Relação mágica de mundo

“Experiências epifânicas de intensidade colocam o espectador em um “pensamento febril”, em um “pensar em um material que é mais imediato, mais fluido, mais incandescente que as palavras”. Evoca-se uma relação mágica de mundo que não se caracteriza pela representação, ou seja, pela imaginação e significação, mas pelo contato e presença imediatos.”

HAN, Byung-Chul. Não coisas: Reviravoltas do mundo da vida. Ed. Vozes, 2021, Local 927.

Magia das coisas

Incêndio em Roma

“Tácito acrescenta em suas observações acerca do incêndio em Roma:

…Primeiro, os seguidores da seita que foram presos confessaram; em seguida, em virtude de suas confissões, um grande número foi sentenciado nem tanto devido ao incêndio, mas pelo ódio da raça humana. E o escárnio acompanhou o fim deles: foram cobertos por peles de animais selvagens e mordidos até a morte por cães; ou foram amarrados a cruzes, e quando a luz do dia se extinguiu os queimaram para servir de tochas à noite. Nero ofereceu seus jardins para exibir o espetáculo… *(Tácito, Anais 15.44-2-8.)

(…) desde a época do império de Augusto (27 a.C.-14 d.C.), o imperador e o Senado reprimiram todos os dissidentes sociais que poderiam causar problemas, como astrólogos, mágicos, seguidores de cultos religiosos estrangeiros e filósofos. “O grupo cristão possuía todas as características da conspiração. Primeiro. diziam-se seguidores de um homem acusado de magia, que fora executado por essa razão e por traição: segundo, eram “ateus que denunciavam como “demônios” os deuses que protegiam a prosperidade do Estado romano – até mesmo a personificação (espirito divino) do imperador; terceiro, pertenciam a uma sociedade ilegal. ”

PAGELS, Elaine. Os Evangelhos Gnósticos. Editora Objetiva, 1979, pág. 86.

Capítulo: 4- A Paixão de Cristo e a Perseguição aos Cristãos.

Textos Hereges de Nag Hammadi

A grande diversidade de textos abrange desde evangelhos secretos, poemas e descrições quase filosóficas sobre a origem do universo até mitos, mágicas e instruções de práticas místicas.

(..) parecem ser ambos parte de uma disputa crítica na formação do início do cristianismo. Os textos de Nag Hammadi e outros similares, que circularam no início da era cristã, foram denunciados como hereges por cristãos ortodoxos em meados do século II. Sabemos que muitos dos primeiros seguidores de Cristo foram condenados por outros cristãos como hereges porém
quase tudo que conhecíamos sobre eles provinha do que fora a escrito por seus adversários para atacá-los.”

PAGELS, Elaine. Os Evangélhos Gnósticos. Editora Objetiva, 1979, pág. XVIII-XIX.

Capítulo: Introdução.

A Magia é Mental

“O primeiro dos Sete Princípios Herméticos é o princípio de Mentalismo, o seu axioma é “O TODO é Mente; o Universo é Mental“, que significa que a Realidade Objetiva do Universo é Mente; e o mesmo Universo é Mental, isto é, existente na Mente do TODO. Estudaremos este princípio nas seguintes lições, mas deixai-nos examinar o efeito do princípio se for considerado como verdade,

Se o Universo é Mental na sua natureza, a Transmutação Mental pode ser considerada como a arte de MUDAR AS CONDIÇÕES DO UNIVERSO, nas divisões de Matéria, Força e Mente. Assim compreendereis que a Transmutação Mental é realmente a Magia de que os antigos escritores muito trataram nas suas obras místicas, e de que dão muito poucas instruções práticas. Se Tudo é Mental, então a arte que ensina a transmutar as condições mentais pode tornar o Mestre diretor das condições materiais tão bem como das condições chamadas ordinariamente mentais.

Três Iniciados. O Caibalion: Estudo da Filosofia Hermética do Antigo Egito e da Grécia. Editora Pensamento: São Paulo, 2018, pág. 32.

Círculo Para Bruxaria

“Um embaixador romano, num país estrangeiro, formava um círculo de subalternos ao seu redor, para mostrar que estava protegido de ataques; os babilônios fazer um círculo de farinha ao redor da cama de um homem doente, para manter os demônios afastados; os judeus alemães, na idade média, desenhar um círculo ao redor da cama de uma mulher em trabalho de parto, para protegê-la contra espíritos malignos. O uso de um círculo para marcar a fronteira de uma área que é sagrada é muito antigo (veja Stonehenge, por exemplo). Mas o Círculo não apenas mantenha os indesejados do lado de fora, e também mantém o que se deseja – o poder do elevado, a energia mágica – contido dentro dele.”

Buckland, Raymond. Livro completo de bruxaria de Raymond Buckland: tradição, rituais, crenças, história e prática. Editora Pensamento Cultrix, São Paulo, 2019, p. 126.

Ocasião, Sentimento, Limpeza

“(…) alguns fatores essenciais da magia.

O primeiro deles é a ocasião em que a magia é realizada. (…) A magia construtiva (para o crescimento) é realizada, basicamente, durante o quarto crescente, e a magia para destruição é realizada durante o quarto minguante. A magia construtiva consiste em estimular coisas com amor, sucesso, a proteção, à saúde, a fertilidade. A magia destrutiva inclui feitiço de amarração, separação, eliminação, extermínio. Essas magias tem um elemento de magia simpática apenas com relação a época em que são realizadas.  (…)

O segundo fator essencial da magia é o sentimento. Você precisa realmente querer que aconteça aquilo pelo que você está trabalhando. Precisa querer com todo o seu ser. Investir cada infinita partícula de poder nesse desejo, nessa vontade de ver algo acontecer. (..) Esse forte “sentimento” é, com efeito, o “poder” acumulado usado na magia. Como auxiliares, ou propulsores do seu poder, podem ser usados um grande número de amplificadores. Um desses é o canto e outro é a rima. O cantar ritmado de um feitiço, com uma batida seca, regular, pode ajudar a intensificar seu sentimentos e, desta maneira, aumentar seu poder. (…)

A limpeza é o terceiro fator essencial da magia.  Quando praticar magia, é aconselhável estar com o corpo limpo. Interna e externamente. (…) Também prepare o corpo inteiro e hoje removendo as toxinas faça isso jejuando durante 24 horas, antes de realizar o trabalho mágico. Abstenha-se do álcool, da nicotina e da atividade sexual.”

Buckland, Raymond. Livro completo de bruxaria de Raymond Buckland: tradição, rituais, crenças, história e prática. Editora Pensamento Cultrix, São Paulo, 2019, pp. 83-84.