Grande Paradoxo

De acordo com uma das formas tradicionais de encarar esses suportes da meditação, a forma feminina (em tibetano: yum) deve ser observada como o tempo; e a forma masculina (yab) como a eternidade. A união dos dois produz o mundo, em que todas as coisas são, a um só tempo, temporais e eternas, criadas a imagem desse deus macho-fêmea autoconsciente. (…) E assim é que tanto o masculino como o feminino devem ser encarados, alternativamente, ora como o tempo, ora como a eternidade. Isso quer dizer que os dois são o mesmo, cada um é os dois e a forma dual (yab-yum) não passa de efeito da ilusão – a qual, todavia, não difere da iluminação.

Eis uma suprema enunciação do grande paradoxo por meio do qual o mundo dos pares de opostos é abalado e o candidato admitido à visão visão do Deus, o qual, ao criar o homem à sua própria imagem, o criou homem e mulher.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, pp . 161-162

Nirvana

A pausa no limiar do Nirvana, a resolução de adiar até o fim do tempo (que nunca tem fim)  a imersão no poço imperturbável da eternidade, representa uma percepção de que a distinção entre a eternidade e o tempo não passa de aparência – tendo sido elaborada, à força, pela mente racional, mas dissolvida pelo conhecimento perfeito da mente que transcendeu os pares de opostos. Esse conhecimento reconhece que o tempo e a eternidade configuram-se como dois aspectos da mesma experiência total, dois planos do mesmo inefável não-dual; isto é, a jóia da eternidade está no lótus do nascimento e da morte: om mani padme hum.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 146.

Contemplação dos opostos

Através desse exercício, seu espírito é purgado de toda sentimentalidade e ressentimento, infantis e inadequados, e sua mente é aberta à presença inescrutável, que existe não primariamente como “boa”ou “má” com relação à sua infantil conveniência humana, seu bem-estar e a sua aflição, mas sim como lei e imagem da natureza do ser.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 116.

Consciência dos opostos

O “Muro do Paraíso”, que oculta Deus das vistas humanas, é descrito por Nicolau de Cusa como constituído pela “consciência dos opostos”, sendo seu portão guardado pelo “mais alto espírito da razão, que impede a passagem enquanto não for superado”. Os pares de opostos (ser e não-ser, vida e morte, beleza e feiúra, bem e mal, e todas as outras polaridades que ligam as faculdades à esperança e ao temor e que vinculam os órgãos de ação a tarefas de defesa e aquisição) são as rochas em colisão (Simplégades), que esmagam os viajantes, mas pelas quais os heróis sempre passam.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 90.