Carta branca aos analisandos

“No que diz respeito a essa liberdade totalmente destituída de programa, talvez seja o zen budismo, com suas etapas em direção a experiência do satori, que maıs se aproxime da abordagem junguiana. Neste caso também só existe o fato de que vários mestres possuem uma verdadeira experiência do Si-mesmo e vivem a partir dela mais não é nem preconcebido nem preconcebível. A única coisa que distingue o zen da imaginação tudo ativa junguiana, até onde consigo perceber, é o seguinte, No zen budismo – pelo menos fol garantiu o professor D. T. Suzuki em uma conversa de fantasia e os sonhos que surgem não são considerados essenciais, e sim o oposto, como sendo elementos relativamente sem importância que ainda encobrem a “verdadeira natureza”. O mestre tenta fazer com que o discípulo se liberte deles e também dos outros falsos apegos do ego. Na imaginação ativa de Jung, pelo contrário, nós nos curvamos para apanhar cada fragmento de símbolo que nossa psique nos oferece e trabalhamos como ele, visto que, para nós, isso parece ser um rudimento ou uma parte do Si-mesmo – talvez uma parte irreconhecida.

Isso nos conduz a certo problema que possivelmente talvez seja tema de controvérsia. Jung fazia parte do grupo de psicoterapeutas mais à esquerda daqueles que defendiam incondicionalmente a liberdade do indivíduo. Na meditação representada, por exemplo, pelo treinamento autógeno de J. H. Schultz, ainda encontramos indicados exercícios de relaxamento. No guia de meditação de Carl Happich, temas como “a campina da infância” ou “a montanha” são sugeridos, e o psicoterapeuta “guia” o analisando dentro da fantasia em direção a esses temas.

Com relação ao rêve éveillé (sonho desperto) de René Desoille, método que ele muito deve a Jung, uma distinção fundamental é que o psicoterapeuta oferece sua reação aos eventos internos simbólicos; por exemplo, ele sugere ao paciente o que este poderia ou deveria fazer na situação simbólica. Além disso, Desoille requer uma experiência do inconsciente coletivo e seus arquétipos e, ao mesmo tempo, que esses últimos sejam conhecidos a fundo. Assim, uma ênfase excessiva, na nossa opinião, é colocada na orientação do psicoterapeuta e nas suas reações; isso de modo nenhum contribui para a independência moral e espiritual do analisando.

(…) A única intervenção dele, quando existe uma reação que se manifesta através de sintomas ou sonhos, é interpretar o significado desses sonhos e sintomas da maneira como são habitualmente interpretados na análise. É preciso lembrar que não fui eu, e sim um sonho que acusou de magia negra a analisanda anteriormente mencionada, e foi um ataque cardíaco para não esquecer o “coracão”. Essas reações espontâneas do inconsciente à imaginação ativa ocorrem frequentemente. Elas possibilitam que demos carta branca aos analisandos da maneira como descrevi acima. O fato de o “mestre” viver essencialmente na psique deles – um medicus intimus, como o profesor Schmaltz apropriadamente o chamava é uma experiência extremamente valiosa para eles.”

FRANZ, Marie-Louise von. Psicoterapia.São Paulo: Paulus, 2021, pág. 199-201.

A imaginação ativa na psicologia de C.G Jung

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