A Origem Psíquica dos Símbolos Religiosos e do Dogma

“O que geralmente se chama de “religião” constitui um sucedâneo em grau tão espantoso que me pergunto seriamente se esse tipo de religião – que prefiro chamar de “confissão” – não desempenha uma importante função na sociedade humana. Ela tem a finalidade evidente de substituir a experiência imediata por um grupo adequado de símbolos envoltos num dogma e num ritual fortemente organizados. A Igreja Católica os mantém por força de sua autoridade absoluta. A “Igreja” protestante (se ainda se pode falar em “Igreja”) os mantém pela ênfase da fé na mensagem evangélica.

(…) estou plenamente convencido da extraordinária importância do dogma e dos ritos, pelo menos enquanto métodos de higiene. Se o paciente é católico praticante, eu o aconselho a confessar-se e a comungar, para resguardar-se de uma experiência imediata, que poderia ser superior às suas forças.

(…)

Na minha condição de médico, poderia facilmente aderir à chamada crença “científica”, segundo a qual uma neurose nada mais é do que sexualidade infantil reprimida ou ambição e poder. Com uma tal depreciação dos conteúdos psíquicos seria possível, até certo ponto, proteger um número considerável de pacientes contra o perigo das experiências imediatas. Mas sei que esta teoria só é verdadeira em parte, e isto significa que ela só abarca alguns aspectos da psique neurótica. Não posso, porém, dizer a meus pacientes algo de que não esteja plenamente convencido.

(…) Quando me perguntam a respeito, meu saber limita-se sempre àquilo que considero que conheço. (…) se um paciente está convencido da origem exclusivamente sexual de sua neurose, não abalaria sua opinião, porque sei que tal convicção, principalmente se estiver profundamente arraigada, constitui uma excelente defesa contra a terrível ambigüidade da experiência imediata. Enquanto tal opinião for eficiente, não a derrubarei, porque sei que devem existir poderosos motivos para que o paciente seja obrigado a pensar dentro de um círculo tão restrito que defenderia pessoalmente a solução, a couraça protetora, tenho sob a qual se sente mais seguro. Mas se seus sonhos começam a solapar a couraça protetora, tenho que considerar uma personalidade mais ampla.

(…)

Mas em todas as ocasiões lhe fiz ver que eu estava inteira-
mente do lado da voz, na qual reconhecia parte de sua personalidade futura mais ampla, destinada a libertá-lo de sua atitude unilateral.

Roma locuta, causa finita (Roma falou, o assunto está encerrado).

“Com a mesma freqüência encontramos essas imagens nas religiões pagãs. Além disso, elas podem reaparecer espontaneamente, em todas as variações possíveis, como fenômenos psíquicos, do mesmo modo que no passado remoto provieram de visões, sonhos e estados de transe. Tais idéias nunca foram inventadas. Nasceram quando a humanidade ainda não havia aprendido a utilizar o espírito como atividade para fins determinados. Antes que os homens aprendessem a produzir pensamentos, os pensamentos vieram a eles. Os homens não pensavam, e sim recebiam sua própria função espiritual.”

 

JUNG, C.G. Psicologia e Religião.Psicologia e Religião Ocidental e Oriental ,OC. Editora Vozes. 2012. Pág.61-64.

II. Dogma e Símbolos naturais

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