(…) ficou tão aborrecida com a própria raiva, que durante duas horas só conseguiu praguejar para si mesma e ab-reagir internamente, incapaz de retornar ao seu trabalho intelectual. Como sabemos esses afetos são extremamente inúteis e exaustivos, e o fato de a pessoa “estar certa” não impede que a raiva cause estrago na pessoa.
Nesse ponto, a garota teve o pensamento de como seria infinitamente engraçado e surpreendentemente acompanhar a reação da velha, ao vê-la de pé ao lado do anão preto com pés de sapo, e ela não pôde deixar de rir. De fato, de tão assombrada, a velha fez uma expressão grotesca, mas a garota disse: “Este cavalheiro gostaria de falar com a senhora”. Sem graça, a velha convidou os dois para se sentarem na sua melhor sala de estar, na qual, por sinal, garota nunca tinha estado. (Quando, muito mais tarde, ela teve a oportunidade de entrar lá, descobriu, para seu assombro, que ela imaginara, na imaginação ativa, a sala exatamente como era na realidade.)
(…) Talvez alguém ache que essa imaginação não foi muito ativa, e sem dúvida é verdade que ela se desenrolou de uma maneira relativamente passiva e cinematográfica. Mas foi genuína, porque, em certos momentos a garota participou plenamente e tomou decisões éticas (…)
(…) Quando escuto as imaginações ativas dos analisandos, frequentemente penso em pontos particulares: “Eu não teria agido dessa maneira! Mas essa reação demonstra como a imaginação que ocorre corresponde a uma série de eventos pessoalmente condicionada e única, como a realidade, da vida individual em si. O fato de a velha paranoica também ter sofrido uma mudança é um pouco surpreendente, mas não fora do comum. E isso nos leva a outro perigo inerente à imaginação ativa, o perigo de a utilizarmos de maneira errada, como uma espécie de magia negra, para atingir objetivos egoistas ou influenciar outras pessoas.
(…) A imaginação sob a forma de “feitiço de amor” ou a serviço dos delírios de grandeza da pessoa (fantasias heroicas) pertence à mesma categoria. As fantasias de satisfação dos desejos não estão de maneira alguma relacionadas com a imaginação ativa. A garota cujo caso descrevi acima não teve nenhuma intenção de influenciar a velha. Só queria se livrar da influência destrutiva do seu próprio afeto. Essa pureza ética de intenção é um dos requisitos básicos para qualquer imaginação ativa.
(…) Em geral, o uso da imaginacão ativa é indicado quando existe intensa pressão do inconsciente – ou seja, quando grande número de sonhos e fantasias apa rece o tempo todo – ou, ao contrário, quando a vida dos sonhos está bloqueada e não “flui” Em todos os casos em que se busca a independência interior, a imaginação ativa oferece uma oportunidade única para essa realização. O elemento de autolibertação rápida e eficaz dos afetos e ideias obsessivos faz da imaginação ativa um importante instrumento para o próprio terapeuta. C. G. Jung até mesmo considera indispensável que o analista domine essa forma de meditação. (…)Como disse Jung, a impressão de algo feio deixa para trás algo feio na nossa psique. E, ao nos relacionarmos com essas “impressões”, nem sempre podemos ficar esperando um sonho curativo ou que elas desapareçam como resultado dos instintos saudáveis do paciente. Especialmente quando, no mesmo dia, estaremos recebendo outros analisandos; (…) No entanto, sempre podemos encaixar uma curta imaginção ativa nesses casos, raramente precisamos mais do que dez minutos – e desse modo nos libertarmos. Quando não temos tempo nem mesmo para isso, às vezes apenas a decisão sincera de lidar com o distúrbio mais tarde através da imaginação ativa já ajuda. Afinal de contas, em última análise, o psicoterapeuta é uma pessoa capaz de curar a si mesma. De acordo com Aelian, o cachorro é o animal associado ao deus da cura, Asclépio, porque tem o conhecimento de comer grama, a fim de obrigar-se a vomitar um alimento nocivo e porque lambe as próprias feridas com sua saliva desinfetante!”
FRANZ, Marie-Louise von.Psicoterapia.São Paulo: Paulus, 2021, pág. 190-195.
A imaginação ativa na psicologia de C.G Jung
