A Psique Inconsciente, a Voz Interior e a Intuição

Assim, ao longo de centenas de sonhos cuidadosamente anotados, a voz se revelou como representante essencial e determinante do inconsciente. Como o paciente não conseguia, de modo algum, o mínimo êxito por mais observado em que se dá o fenômeno da voz em sonhos e em outros estados especiais da consciência, devo admitir que o inconsciente revela às vezes uma inteligência e intencionalidade superiores à compreensão consciente de que somos capazes no momento. Sem dúvida, este fato — observado num indivíduo cuja atitude consciente parecia quase incapaz de produzir fenômenos religiosos — constitui um fenômeno religioso básico. Não raro tive a ocasião de fazer observações semelhantes em outros casos, e devo confessar que não posso expressar os fatos de maneira diversa. Com frequência tenho me defrontado com a objeção de que as ideias apregoadas pela voz nada mais são do que os próprios pensamentos do indivíduo. Talvez o seja. Mas eu só consideraria meu um pensamento que eu mesmo tivesse pensado, assim como só diria que uma soma de dinheiro é minha, se a tivesse adquirido consciente e legitimamente. Se alguém me tivesse dado o dinheiro de presente, certamente eu não poderia dizer, em seguida, a uma terceira pessoa: “este dinheiro me pertence”. A situação é parecida, no que diz respeito à voz. A voz me proporciona certos conteúdos, da mesma forma que um amigo me comunica suas idéias. Se eu afirmasse que o que ele diz se origina diretamente e em primeiro lugar, nihil a me alienum, não estaria sendo correto nem isso corresponde à verdade, mas se trata de um plágio.

Esta é a razão pela qual distingo entre aquilo que nasce ou é adquirido pelo meu próprio esforço, daquilo que constitui, clara e inequivocamente, uma criação do inconsciente. (…) Mas não estou absolutamente convencido de que o inconsciente seja, de fato, tão somente minha psique, pois o conceito de “inconsciente” significa que não tenho consciência dele. O conceito de inconsciente é, na realidade, uma simples pressuposição adotada por razões de comodidade. Na verdade, estou inconsciente disso. Em outras palavras, não sei sequer onde se origina a voz. Não apenas sou incapaz de produzir voluntariamente o fenômeno, como também é impossível conhecer antecipadamente o conteúdo da mensagem. Em tais condições, seria uma temeridade dizer que o fator que produz a voz é meu inconsciente ou meu espírito. Pelo menos, não seria exato. O fato de percebermos a voz em nossos sonhos nada comprova, porque também podemos perceber o ruído que vem da rua, e não passaria pela cabeça de ninguém considerá-lo seu próprio ruído.

Existe uma única condição pela qual seria lícito dizer que a voz é nossa: se achássemos que a personalidade consciente constitui uma parte de um todo, como um círculo menor contido em um outro, maior. Um pequeno funcionário de banco que, ao mostrar a cidade a um amigo, lhe indicasse o edifício onde trabalha, dizendo: “este é meu banco”, estaria se servindo do mesmo privilégio.

Podemos dizer que a personalidade humana é constituída de duas partes: a primeira é a consciência e tudo o que ela abrange, e a segunda é o interior de amplidão indeterminada da psique inconsciente. A personalidade consciente é mais ou menos definível e determinável, mas em relação à personalidade humana, como um todo, temos de admitir a impossibilidade de uma descrição completa dela.

Como os conteúdos anímicos só se tornam conscientes e perceptíveis à medida em que aparecem associados a fatos ego-relacionados. Apesar de que o fenômeno da voz seja evidentemente possessivo, poderia provir de uma psique não-ego. Tal hipótese seria admissível sempre que constatássemos o eu como subordinado ou contido num “Si-mesmo” (Selbst) superior, que constitui o centro da personalidade psíquica total, ilimitada e indefinível.

(…)

A experiência psicológica me tem mostrado invariavelmente que certos conteúdos provêm de uma psique mais ampla do que a consciência. Com frequência, eles encerram uma análise, uma compreensão ou um saber de grau superior, que a consciência do indivíduo seria incapaz de produzir. O termo mais apropriado para designar tais acontecimentos é: intuição.

(…)
Ela surge espontaneamente, temos a idéia de que se apresenta por si mesma, e que somos capazes de a ser formada suficientemente rápidos.”

JUNG, C.G. Psicologia e Religião.Psicologia e Religião Ocidental e Oriental ,OC. Editora Vozes. 2012. Pág.56-59.

II. Dogma e Símbolos naturais

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