“O interesse principal do meu trabalho”, escreve Jung, “não está relacionado com o tratamento das neuroses, e sim com a abordagem do numinoso. Mas o fato é que a abordagem do numinoso é a verdadeira terapia e, na medida em que alcançamos as experiências numinosas, somos libertados da maldição da patologia. Até mesmo a doença assume um caráter numinoso”. Essa citação diz tudo o que é essencialmente importante sobre uma análise junguiana. Se não for possível estabelecer um relacionamento com o numinoso, nenhuma cura é possível; o máximo que podemos esperar é uma melhora no ajustamento social.
Como a neurose é um problema de atitude, e a atitude depende ou se baseia em certos “dominantes”, ou seja, os mais elevados e supremos princípios e ideias, o problema da atitude pode ser chamado de religioso. Isso é garantido pelo fato de que nos sonhos e nas fantasias os temas religiosos aparecem com o nítido objetivo de regular a atitude e restaurar o equilíbrio perturbado. Observei, por exemplo, que, por via de regra, quando conteúdos “arquetípicos” surgem espontaneamente nos sonhos etc., efeitos numinosos e curativos emanam deles. Trata-se de experiências psíquicas primordiais que frequentemente reabrem o acesso do paciente às verdades religiosas que haviam sido bloqueadas. Eu mesmo tive essa experiência.
Assim como através de opiniões preconcebidas eu posso refrear ou efetivamente interromper o influxus divinus (influência divina), de onde quer que venha, também me é possível, através do comportamento adequado, aproximar-me dele e, quando isso acontece, aceitá-lo. Não posso forçar nada; só posso me esforçar para fazer tudo que favoreça esse evento e nada que o contrarie. O que acontece então, mas não necessariamente, é o tipo de ação espontânea que surge do inconsciente e que foi simbolizada como o relâmpago pelos alquimistas Paracelso, Böhme e por aqueles que estudam hoje em dia o inconsciente.”
A partir desse ponto de vista, o trabalho do terapeuta só pode consistir em destruir as ideias preconcebidas e os bloqueios à possível experiência numinosa. (Isso está relacionado com o antigo problema da teologia — se a salvação vem da graça ou do esforço humano; obviamente ambos são necessários.)”
FRANZ, Marie-Louise von. Psicoterapia.São Paulo: Paulus, 2021, pág. 219-220.
A dimensão religiosa da análise
