A imperatriz Criança

“A imperatriz Criança — conforme o seu título já dizia — era a soberana de todos os inumeráveis países do reino sem fronteiras de Fantasia; na verdade, porém, ela era muito mais do que soberana, ou melhor, era algo muito diferente.Não governava, nunca tinha empregado a força ou feito uso do seu poder, não dava ordens e não julgava ninguém, nunca atacava nem tinha de se defender de atacante algum; pois ninguém jamais pensaria em se rebelar contra ela ou em lhe fazer mal. Para ela, todos eram iguais.

Limitava-se a existir, mas sua existência tinha um significado muito especial: ela era o centro de toda a vida de Fantasia.

E todas as criaturas, boas ou más, bonitas ou feias, alegres ou sérias, loucas ou sábias, todas, mas todas mesmo, só existiam porque ela também existia. Sem ela, nada podia existir, assim como um corpo humano não pode existir sem coração.

(…) E por isso mesmo ela era respeitada por todas as criaturas daquele reino, e todos se preocupavam igualmente com a sua sobrevivência. Pois sua morte seria o fim de todos, o fim do incomensurável reino de Fantasia.

Quando seu pai perguntava como estava sua mãe, recebia apenas respostas evasivas. Ninguém parecia saber ao certo como ela estava. Finalmente, apareceu um homem calvo, vestido com uma bata branca, que tinha um ar triste e cansado. Disse-lhes que todos os esforços tinham sido em vão e que sentia muito. Apertou-lhes a mão com força, murmurando “meus pêsames”.

Depois, tudo se modificara entre Bastian e seu pai.

(…)

No fundo, porém, ele não se interessava por essas coisas todas.

Bastian lembrava-se de que antigamente seu pai gostava de brincar com ele. Por vezes, contava-lhe ou lia-lhe histórias. Mas isso era antes. Agora não conseguia falar com o pai. Era como se estivesse rodeado por um muro invisível que ninguém era ca-paz de transpor.”

ENDE, Michael. A História sem fim.São Paulo: Martins Fontes, 2022, pág. 38-39.

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