“(…) Cairon acenou lentamente a cabeça. Depois, tirou a corrente com o amuleto de ouro e colocou-a em volta do pescoço de Atreiu.
– Que AURIN lhe dê o grande poder – disse solenemente. – Mas não o utilize, pois a imperatriz Criança também inutilizará o uso do seu poder. AURIN o protegerá e o guiará, mas você não deverá intervir, seja o que for que veja, pois de agora em diante sua opinião pessoal deixa de contar. Por isso deve ir sem armas. Você terá que deixar acontecer o que tiver de acontecer. Tudo deve ter o mesmo valor para você, o bem e o mal, o belo e o feio, a loucura e a sabedoria, tal como tudo tem o mesmo valor para a imperatriz Criança. Você só pode procurar e perguntar, mas nunca julgar por si mesmo. Nunca se esqueça disto, Atreiu.
(…)
– Não tenho pais nem irmãos – replicou Atreiu. – Os meus pais foram mortos por um búfalo, pouco depois de eu ter vindo ao mundo.
– Quem é que o criou?
– Todas as mulheres e todos os homens. Foi por isso que me chamaram Atreiu, que significa, nas palavras da Grande Língua: “Filho de Todos”.
Bastian compreendia melhor do que ninguém o significado daquela afirmação, apesar de seu pai ainda estar vivo. E apesar de Atreiu não ter pai nem mãe. Mas Atreiu tinha sido criado por todos os homens e todas as mulheres e era o “filho de todos”, enquanto ele, Bastian, no fundo não tinha ninguém… Era um “filho de ninguém”. Apesar de tudo, Bastian alegrava-se por ter alguma coisa em comum com Atreiu, pois em outros aspectos, não havia grandes semelhanças entre eles, nem do ponto de vista da coragem e da decisão, nem do aspecto físico. Mas também ele, Bastian, tinha partido para a Grande Busca, e não sabia até onde ela podia levá-lo, nem como poderia acabar.
(…)
O rosto de Atreiu tornou-se ainda mais tenso e severo.
– Por onde devo começar?
– Por toda a parte e por parte nenhuma – respondeu Cairon. – De agora em diante você está sozinho, e ninguém pode aconselhá-lo. E assim vai ser até o fim da Grande Busca… seja ele qual for.”
ENDE, Michael. A História sem fim.São Paulo: Martins Fontes, 2022, pág. 49-50.
