As drogas na visão de C. G. Jung

Jung, portanto, só estava familiarizado com os efeitos da mescalina (especialmente através da descrição de Aldous Huxley) sabia apenas que esses produtos farmacêuticos estavam começando a chamar a atenção na psicoterapia. Ele admitiu, em uma carta escrita em abril de 1954, que não estava suficientemente familiarizado com o valor psicoterapêutico dessas drogas, no caso de pacientes neuróticos e psicóticos, para ser capaz de formar um julgamento conclusivo.

Por outro lado, estava profundamente inquieto com a nossa tendência atual de explorar essas descobertas por mera curiosidade, sem reconhecer a crescente responsabilidade moral a que nos expomos:

“Esse é realmente o erro da nossa era. Pensamos que basta descobrir coisas novas, mas não percebemos que saber mais exige um desenvolvimento correspondente da moralidade. As nuvens radioativas sobre o Japão, Calcutá e Saskatchewan apontam para um envenenamento progressivo da atmosfera universal.

Estou profundamente desconfiado das puras dádivas dos Deuses. Pagamos muito caro por elas. Quidquid id est timeo Danaos et dona ferentes.

De modo geral, as drogas (o haxixe, a mescalina, o LSD, o ópio, a heroína) provocam um declínio da percepção, ou seja, a decomposição da síntese consciente e da percepção de gestalts (no sentido da Psicologia gestalt), o que causa o aparecimento das variantes de percepção normais — inúmeras nuances de forma, significado e valor — que normalmente permanecem subliminares.

Significa, acima de tudo, um enriquecimento da consciência. Entramos em contato com “a esfera onde é fabricada a tinta que colore o mundo, onde é criada a luz que faz brilhar o esplendor da alvorada, as linhas e formas de toda forma, o som que inunda o universo, o pensamento que ilumina as trevas do vácuo”. Nessa é uma experiência do inconsciente coletivo. Se essa experiência fosse uma dádiva de Deus sem um antídoto oculto, ela significaria um tremendo enriquecimento, uma expansão da consciência pela qual somos naturalmente fascinados. Mas é exatamente essa expansão e enriquecimento da consciência que torna impossível a integração e o processamento moral do que vemos e ouvimos nesse estado. Jung, portanto, diz o seguinte:

“Quando estamos excessivamente inconscientes, é grande o alívio conhecer um pouco do inconsciente coletivo. Mas logo se torna perigoso conhecer mais, porque não aprendemos ao mesmo tempo como equilibrar isso através de um equivalente consciente.

Talvez existam algumas infelizes e empobrecidas criaturas para quem a mescalina seria uma dádiva enviada pelos deuses sem um antídoto.”

O mundo do inconsciente coletivo que Jung, sem o uso de drogas, foi o primeiro a descobrir em sua essência como a base criativa primordial existente em todo ser humano, é algo vivo que não aceita ser subjugado sem uma reação equivalente.

Por esse motivo, venho dedicando um longo tempo a estudar a questão de como o inconsciente reage ao uso das drogas.”

(…) o insconsciente reage negativamente à irresponsável penetração na sua esfera.”

FRANZ, Marie-Louise von. Psicoterapia.São Paulo: Paulus, 2021, pág. 353-356.

As drogas na visão de C. G. Jung

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