Contemplei-a a vida toda e não consegui decifrá-la

“O telescópio estava voltado para a grande porta de pedra, de modo que se pudesse observar a parte inferior do pilar direito. Atreiú viu, então, que junto desse pilar estava sentada uma grande esfinge, ereta e imóvel banhada pela luz do luar. As patas dianteiras, sobre as quais se apoiava, eram de leão, mas a parte de trás do corpo era de touro; tinha nas costas grandes asas de águia, e o seu rosto era o de um ser humano… mas só na forma, pois a expressão não era humana. Era difícil perceber se aquele rosto sorria ou refletia uma tristeza infinita, ou ainda uma indiferença total. Depois de a ter contemplado durante algum tempo, Atreiú achou que ela exprimia uma maldade e uma crueldade incomensuráveis, mas, pouco depois, teve de retificar essa impressão, pois nela apenas conseguia encontrar serenidade.

— Desista! — ouviu a voz do gnomo dizer junto ao seu ouvido. — Você nunca vai descobrir. É o que acontece com todo o mundo. Comigo também. Contemplei-a a vida toda e não consegui decifrá-la. E agora, a outra!”


ENDE
, Michael. A História sem fim.São Paulo: Martins Fontes, 2022, pág. 96.

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