“(…)— Mas por quê? — murmurou. — Por que não fugiram?
— Tinham perdido a esperança. Isto torna as pessoas fracas. O Nada as atrai irresistivelmente e nenhuma delas consegue resistir durante muito tempo.
(…)
— Gmork — gaguejou Atreiú, sem conseguir evitar que lhe tremessem os lábios. — Você poderia me ensinar o caminho para o mundo dos homens?
Nos olhos de Gmork brilhou uma chispa verde. Era como se estivesse rindo por dentro.
— Para você e para os que são iguais a você, o caminho de ida é muito fácil. Mas só há um problema: depois não podem voltar. Têm de ficar lá, para sempre. Está disposto a isso?
— O que tenho de fazer? — perguntou Atreiú decidido.
— Aquilo que todos os outros desta cidade já fizeram antes de você, filhinho. Só tem de saltar para o Nada. Mas não há pressa, pois, mais cedo ou mais tarde, vai ser obrigado a fazê-lo, quando as últimas partes de Fantásia desaparecerem.
Atreiú levantou-se.
Gmork reparou que todo o corpo do rapaz tremia. Como não conhecia a verdadeira razão desse tremor, disse para sossegá-lo:
— Não tenha medo, porque não vai doer.
— Não tenho medo — respondeu Atreiú. — Mas nunca teria pensado que recuperaria a esperança aqui e precisamente por seu intermédio.
Os olhos de Gmork brilharam como duas pequenas luas verdes.
— Não há razão para ter esperança, filhinho… seja o que for que esteja pensando. Se você for para o mundo dos filhos do homem, deixará de ser o que é aqui. É esse o segredo que ninguém pode saber em Fantasia.”
ENDE, Michael. A História sem fim.São Paulo: Martins Fontes, 2022, pág.157-158.
