“Grande era a satisfação de Atreiú ao avançar pela floresta de colunas que projetava sombras escuras à clara luz da lua. Reinava um silêncio profundo, e ele mal ouvia o som dos seus próprios pés descalços. Não sabia quem era nem como se chamava, como chegara até ali nem o que procurava. Estava cheio de assombro, mas não tinha nenhuma preocupação.
(…)
A voz cantante respondeu:
Se queres saber de sobre qualquer letra,
Deves fazê-lo em forma de poesia.
Pois aquilo que lido escutou em prosa,
cantado se aprende muito depressa.
Atreiú não tinha muita prática em fazer versos e rimas, e pensou que a conversa ia ser muito difícil se a voz realmente só entendesse as coisas ditas em versos. Teve de refletir durante um bom tempo, antes de dizer:
Se está curiosidade posso ler,
quem és, eu gostaria de saber.
(…)
A imperatriz Criança adoece
E com ela Fantásia.
O mesmo contigo acontece,
Pois o Nada tudo esvazia.
Nadie e Nunca seremos,
Qual nunca houveramos sido.
Porém, se novo nome encontrarmos,
Seu mal será logo banido.
(…)
Mas do outro lado, além de Fantásia,
Existe um reino, o mundo exterior,
De grande riqueza, de rara moralidade,
Que de outra missão é cumpridor.
Os filhos de Adão, pois lá é o nome
Dos habitantes do mundo da Terra.
As filhas de Eva e raça dos homens,
Cujo coração o Nada encerra.
Desde os primórdios possuem todos
O dom de as coisas nomear.
E a imperatriz Criança, em tempos outros,
Partiam eles vida e novo ser.
E davam-lhe lindos nomes,
Mas muito tempo atrás,
Pois vinham a Fantásia, os homens,
E o caminho não sabem mais.”
ENDE, Michael. A História sem fim.São Paulo: Martins Fontes, 2022, pág.117-122.
