Reconciliação Consigo Mesmo e a Totalidade do Homem

“A religião é uma relação com o valor supremo ou mais poderoso, seja ele positivo ou negativo, relação esta que pode ser voluntária ou involuntária; isto significa que alguém pode estar possuído inconscientemente por um “valor”, ou seja, por um fator psíquico cheio de energia, ou que pode adotá-lo conscientemente. O fator psicológico que, dentro do homem, possui um poder supremo, age como “Deus”, porque é sempre ao valor psíquico avassalador que se dá o nome de Deus. Logo que um deus deixa de ser um fator avassalador, converte-se num simples nome. Nele o essencial morreu, e seu poder dissipou-se. Por que os deuses do Olimpo perderam seu prestígio e sua influência sobre a alma humana? Porque cumpriram sua tarefa e porque um novo mistério se iniciava: o Deus que se fez homem.

Poderíamos resumir do seguinte modo o que as pessoas narram acerca de suas experiências: Elas voltaram a si mesmas; puderam aceitar-se; foram capazes de reconciliar-se consigo mesmas e assim se reconciliaram também com situações e acontecimentos adversos. Trata-se, quase sempre, do mesmo fato que outrora se expressava nestas palavras: “Fez as pazes com Deus, sacrificou a própria vontade, submetendo-se à vontade divina”.

Um mandala moderno é uma confissão involuntária de uma situação espiritual particular. Não há divindade no mandala, nem tampouco se alude a uma submissão à divindade ou a uma reconciliação com ela. Parece que o lugar da divindade acha-se ocupado pela totalidade do homem.

Mas como a psique moderna mostrou-nos que a consciência pessoal se fundamenta numa psique inconsciente, cujas dimensões não é possível determinar, achando-se incrustada nela, impõe-se a necessidade de rever o preconceito um tanto antiquado de que o homem nada mais é do que sua consciência. A essa opinião ingênua deve-se contrapor imediatamente a objeção crítica: consciência de quem?”

 

JUNG, C.G. Psicologia e Religião.Psicologia e Religião Ocidental e Oriental ,OC. Editora Vozes. 2012. Pág.102-103.

III. História e psicologia de um símbolo natural

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