A Mulher Cósmica

Quando a figura de Herodes (o símbolo extremo do ego desgovernado e insistente) leva a humanidade ao nadir da degradação espiritual, as forças ocultas do ciclo começam a mover-se por si mesmas. Numa cidadezinha remota, nasce a donzela que se manterá imaculada dos erros comuns de sua geração: uma miniatura, no meio dos homens, da Mulher Cósmica que desposou o vento. Seu ventre, vazio como o abismo primordial, chama para si, graças a sua própria disponibilidade, o poder original que fertilizou vazio.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 299.

Os símbolos da criação do Genesis

O espírito gerador do mundo do pai torna-se um múltiplo da experiência terrena por intermédio de um meio transportador – a mãe do mundo. Trata-se de uma personificação do elemento primal mencionado no segundo versículo do Genesis, onde lemos que ” o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas“. No mito hindu, trata-se da figura feminina por meio da qual o Eu gerou todas as criaturas. Entendida de modo mais abstrato, a mãe do universo e a estrutura que fixa os limites do mundo: “espaço, tempo e causalidade”- a casca do ovo cósmico.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 291.

Grande Paradoxo

De acordo com uma das formas tradicionais de encarar esses suportes da meditação, a forma feminina (em tibetano: yum) deve ser observada como o tempo; e a forma masculina (yab) como a eternidade. A união dos dois produz o mundo, em que todas as coisas são, a um só tempo, temporais e eternas, criadas a imagem desse deus macho-fêmea autoconsciente. (…) E assim é que tanto o masculino como o feminino devem ser encarados, alternativamente, ora como o tempo, ora como a eternidade. Isso quer dizer que os dois são o mesmo, cada um é os dois e a forma dual (yab-yum) não passa de efeito da ilusão – a qual, todavia, não difere da iluminação.

Eis uma suprema enunciação do grande paradoxo por meio do qual o mundo dos pares de opostos é abalado e o candidato admitido à visão visão do Deus, o qual, ao criar o homem à sua própria imagem, o criou homem e mulher.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, pp . 161-162

O mito da Criação do Genesis

Ele representa uma das formas básicas de simbolização do mistério da criação: a transmissão da eternidade ao tempo, a transformação  do um no dois e depois no muitos, assim como a geração da nova vida por meio da recombinação do dis.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 147.

A essência do tempo

Pois a essência do tempo é o fluxo, a dissolução do momentaneamente existente; e a essência da vida é o tempo. (…) O paradoxo da criação, do surgir dar formas temporais a partir da eternidade, é o segredo germinal do pai. Ele jamais pode ser efetivamente explicado. (…) O herói transcende a vida, com sua mancha negra peculiar e, por um momento, ascende a um vislumbre da fonte.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 142.