Transitoriedade das formas

Tendo morrido para o seu Ego pessoal, eis que nascera outra vez, estabelecido no Eu.

O herói é o patrono das coisas que estão se tornando, e não das coisas que se tornaram, pois ele é. “Antes de Abraão existir, EU SOU”.Ele não confunde a aparente imutabilidade no tempo com a permanência do Ser (…) “Nada retém sua própria forma, a Natureza, a maior renovadora, constantemente cria formas de formas. Certamente nada há que pereça em todo universo, há apenas variação e renovação de forma.”

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 236.

A mensagem do Redentor “do Mundo”

O mundo se acha repleto de grupos inimigos em função dessa atitude: adoradores de totens, bandeiras e partidos. Mesmo as chamadas nações cristãs – que, segundo se supõe, seguem um Redentor “do Mundo” – são mais bem conhecidas, na história, pela sua barbaridade colonial, e pelas lutas internas, do que por alguma demonstração prática de amor incondicional, sinônimo da conquista efetiva do ego, do mundo do ego e do deus tribal do ego, que foi ensinada pelo seu professado Senhor supremo:

“Digo, a vós que ouvis: Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam. Bendizei os que vos maldizem e orai pelos que vos caluniam. (…) E, se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? Também os pecadores amam aos que os amam. E se fizerdes bem aos que vos fazem bem, que recompensa obtereis? (…) Sede pois misericordiosos como também o vosso Pai é misericordioso.”

Uma vez que nos libertemos dos preconceitos da nossa própria versão provincianamente limitada, de caráter eclesiástico, tribal ou nacional, dos arquétipos do mundo, torna-se possível compreender que a suprema iniciação não é dos pais maternais locais, que projetam a agressão nos vizinhos para garantir sua própria defesa.  A boa nova, que o Redentor do Mundo traz e que tantos se rejubilaram, por ouvir, pela qual se empenharam em orar, mar que relutam, aparentemente, em demonstrar, afirma que Deus é amor, que Ele é, e deve ser, amado, e que todos, sem exceção, são filhos seus.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, pp. 151-152

Pai Ogro

Pois o aspecto ogro do pai é um reflexo do próprio ego da vítima –  derivado da maravilhosa lembrança da proteção materna foi deixada para trás, mas só depois de ter sido projetada, bem como do fato de a idolatria fixadora daquela inexistência pedagógica constituir por si própria a falta, no sentido de pecado, que nos mantém paralisados e que impede a alma potencialmente adulta de alcançar uma visão mais equilibrada e realista do pai e, em consequência, do mundo. (…) apenas para descobrir, no final de tudo, que pai e mãe se refletem um ao outro e são, em essência, a mesma coisa.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 128.

Cessar de existir

“Nenhuma criatura”, escreve Ananda Coomaraswamy, “pode atingir um grau mais alto da natureza sem cessar de existir”.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 93. Citando Ananda K. Coomaraswamy, Akimcanna: sekf-naughting. New indiam Antiquary, vol. III, Bombaim, 1940, p. 6, nota 14, citando o discurso de Tomás de Aquino, Súmula theologica, I, 63, 3.

“O herói cujo apego ao ego já foi aniquilado vai e volta pelos horizontes do mundo, entra no dragão, assim como sai dele, tão prontamente como um rei circula por todos os cômodos do palácio. Aí reside seu poder de salvar; pois sua passagem e retorno demonstram que, em todos os contrários da fenomenalidade, permanece o Incriado-Imperecível e não há nada a temer.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 93.

Fixações

Essas fixações, representam uma impotência em abandonar o ego infantil, com sua esfera de relacionamentos e ideais emocionais. Estamos aprisionados pelos muros da infância; o pai e a mãe são guardiões das vias de acesso, e a atemorizada alma, temendo alguma punição, não consegue passar pela porta e alcançar o nascimento no mundo exterior.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 69.

A virtude

A virtude não é senão o prelúdio pedagógico da percepção culminante, que ultrapassa todos os pares de opostos. A virtude subjuga o ego voltado para si e torna possível a convergência transpessoal (…)

Pois como declarou Heráclito (no Fragmento 46): “Os diferentes são reunidos, e das diferenças resulta a mais bela harmonia, e todas as coisas se manifestam pela oposição”.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 48.