Morte e ressurreição

Existe um tema comum em mitos pelo mundo afora, o relacionado a morte e a ressurreição. O simbolismo é muitas vezes aprofundado, acrescendo-se uma descida ao submundo, com posterior retorno. Nós encontramos esse mito na descida de Ishtar ao Mundo dos Mortos e na busca por Tannaz; na pedra dos cachos dourados de Sif; na perda das maçãs douradas de Idunn; na morte na ressurreição de Jesus; Na morte na ressurreição de Shiva e muitos mais. Basicamente, todos representa uma chegada do outono e do inverno, seguida pelo retorno da primavera e do verão; a figura principal representando o espírito da vegetação.

Buckland, Raymond. Livro completo de bruxaria de Raymond Buckland: tradição, rituais, crenças, história e prática. Editora Pensamento Cultrix, São Paulo, 2019, pp. 64-65.

Mito x realidade

Se as façanhas de uma figura histórica real proclamam-no herói, os construtores de sua lenda inventarão para ela aventuras apropriadas nas profundezas. Estas serão apresentadas como jornadas a reinos miraculosos e deverão ser interpretados como símbolos, de um lado, de descidas no mar de escuridão da psique e, de outro, de domínios ou aspectos do destino do homem que se tornaram manifestos na vida dessas figuras.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 312.

A constrição do campo da Consciência

Passamos, até o momento, por dois estágios: o primeiro lugar, passamos da semana ações imediatas do Criador Incriado para as personagens, fluidas e não obstante intemporais, da idade mitológica; Em segundo, passamos desses Criadores Criados para esfera da história humana. As emanações se condensaram; campo da consciência sofreu uma constrição. Onde antes eram visíveis corpos causais, ora entra em foco, na pequena pupila teimosa do olho humano, seus efeitos secundários.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 306.

Sábios

Declaração Tomás de Aquino: “Reserva-se o nome de Sábio apenas àquele cuja consideração é o fim do universo, fim esse que é também o início do universo”. Eis o princípio básico de toda a mitologia: o início no fim. Os mitos da criação são permeados por um sentido de predestinação que reivindica ao imperecível todas as formas criadas, cujo primeiro aparecimento de ver este mesmo imperecível como fonte.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 264.

O mistério último

O mito é a revelação de uma plenitude de silêncio no interior e em torno de todo o átomo de existência; é algo que dirige a mente o coração, por meio de figurações cuja forma vem do plano profundo, para aquele mistério último que preenche e cerca todas as existências. Mesmo no mais cômico e aparentemente frívolo de seus momentos, a mitologia dirije a mente para esse imanifesto, que se acha precisamente além do olho.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 263.

A Força e o Ser

Por conseguinte, para perceber o pleno valor de que se revestem de figuras mitológicas esperou até nós, faz-se necessário compreender que elas não são, tão-somente, sintomas do inconsciente (como o são efetivamente todos os pensamentos e atos humanos), Mas também declarações controladas e internacionais de determinados princípios de cunho espiritual, que permaneceram constantes ao longo do curso da história humana, como a forma e a estrutura nevrálgica da própria psique humana. .Em termos sucintos: a doutrina universal ensina que todas as estruturas visíveis do mundo – todas as coisas e seres – são o efetivo de uma força ubíqua de que emergem, força essa que o sustenta e preenche no decorrer do período de sua manifestação e para a qual eles devem retornar quando de sua dissolução última. Trata-se da força que a ciência conhece como energia, os melanésios os como Mana, os índios sioux como Wakonda, os hindus como Shakti e os cristãos como poder de Deus. Sua manifestação na psique que é denominada, na psicanálise, libido. E sua manifestação no cosmo constitui a estrutura e o fluxo do próprio universo.

A apreensão da fonte desse substrato do ser, indiferenciado e, não obstante, particularizado nos quatro cantos do mundo, é frustrada pelos próprios órgãos por meio dos quais deve ser realizada. As formas de sensibilidade e as categorias do pensamento humano, elas mesmas manifestações dessa força, limitam a mente no grau tão considerável, que normalmente é impossível, não apenas vir, como também conceber, além do colorido, fluido, infinitamente variegado e deslumbrante espetáculo fenomênico. A função do ritual e do mito consiste em possibilitar e por conseguinte facilitar, o salto – por analogia. Formas e conceitos que a mente seus sentidos podem compreender são apresentados e organizados de um modo capaz de sugerir uma verdade uma abertura que se encontram mais além.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 255.

Sobre templos e museus

Sempre que é objeto de uma interpretação que a encara como biografia, história ou ciência, a poesia presente no mito fenece. As vividas imagens estiolam-se em fatos remotos de um tempo ou céu distantes. Ademais, jamais há dificuldade em demonstrar que a mitologia, tomada como história ou ciências, é um absurdo. Quando uma civilização passar interpretar sua mitologia deste modo, a vida e foge, os templos transformam-se em museu e o vínculo entre as duas perspectivas é dissolvido. Uma tal praga certamente se abateu sobre a Bíblia e sobre grande parte do culto cristão.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, pp. 244-245.

Consciência individual e vontade universal

O alvo do mito consiste em dissipar a necessidade dessa ignorância diante da vida por intermédio de uma reconciliação entre consciência individual e vontade universal. E essa reconciliação é realizada através da percepção da verdadeira relação existente entre os passageiros fenômenos do tempo e a vida imperecível que vive e morre em todas as coisas.

“Como uma pessoa desse as roupas usadas e as troca por novas, assim também o Eu que habita o corpo desse app os corpos usados e os troca por novos. Impenetrável, incombustível, insolúvel, inabalável, esse Eu não é permeado, consumido pelo fogo, dissolvido pela água, abalado pelo feito. Eterno, mutável, imóvel, todo penetrante, o Eu é para sempre inalterável.”

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 232.

Jesus, o resumo do mito

Eis todo o mito num momento: Jesus, o guia, o caminho, a visão e o companheiro do retorno. Os discípulos são os iniciados, ainda não dominam o mistério, mas são introduzidos na experiência total do paradoxo dos dois mundos em um. Pedro foi tomado de estar o temor, que balbuciou. A carne dissolvera-se diante dos seus olhos para revelar a Palavra. Eles caíram sobre o seu rosto e, quando se ergueram, a porta tornara a se fechar.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 226.