Primeiras aparições do tarô de Marselha

“Posteriormente, vários autores que estudaram o tarô nos círculos ocultistas do século XIX retomariam esse termo, que tampouco se mostrou evidente para eles de imediato. Desse modo em sua Histoire de la magie, publicada em 1860, Éliphas Levi, que desempenhou um papel importante na história do Tarô divinatório, evoca “tarôs italianos”. Papus outro ocultista importante nessa história, foi quem deu prioridade ao “Tarô de Marselha” em seu influente livro Le Tarot des Bohémiens [O Tarô dos Boêmios] (1889) “Indiscutivelmente, o Tarô Italiano, o de Besançon e o de Marselha são os melhores que temos hoje, sobre tudo o último, que reproduz muito bem o tarô simbólico primitivo”.

NADOLNY, Isabelle. História do TarôUm estudo completo sobre suas origens, iconografia e simbolismo. Ed. Pensamento, 2022, pág. 122.

Tradição chamada de Tarô de Marselha

“(…) vimos que o chamado Tarô de Marselha” se inspira em um modelo talvez vindo de Milão; que o mais antigo jogo em conformidade com esse modelo é parisiense, datado dos anos 1650, com um modelo mais completo em Dijon, em 1709, e que está longe de ter sido o único: muitos outros tarôs surgiram a partir do século XVIII, mais ou menos próximos desse modelo. Após observá-los um pouco, podemos nos perguntar por que esse modelo se impôs hoje e não os outros. Evocamos brevemente o importante papel desempenhado pelos fabricantes de cartas em sua edição, e com razão! Eles não apenas fabricavam ou vendiam cartas, mas também criavam e exerciam uma função relevante na transmissão ou não de um ou outro tipo de jogo. Desse modo, se toda uma tradição chamada de Tarô de Marselha existe é também graças ao papel preponderante, desempenhado por Paul Marteau, diretor da casa Grimaud, em 1930.”

NADOLNY, Isabelle. História do TarôUm estudo completo sobre suas origens, iconografia e simbolismo. Ed. Pensamento, 2022, pág. 121.

Produção anual de 914 mil baralhos

“Durante o período de apogeu da produção de cartas em Marselha, em meados do século XVIII, um relatório do procurador-geral no parlamento da Provença cita uma produção anual de 914 mil baralhos (todos os jogos de cartas juntos). O período de 1783-1789 teve oito fabricantes de cartas que produziram cerca de 360 mil baralhos.”

(…)

“Essa profusão de fabricantes e de cartas em Marselha pode constituir uma primeira explicação para a sobrevivência do Tarô de Marselha hoje. Thierry Depaulis enumerou cerca de quarenta tarôs ainda conservados e que foram fabricados em Marselha do século XVIII ao inicio do XIX, contra 24 de todas as outras cidades (Dijon, Grenoble, Lyon. Avignon e Besançon).”

NADOLNY, Isabelle. História do TarôUm estudo completo sobre suas origens, iconografia e simbolismo. Ed. Pensamento, 2022, pág. 113-117.

A Itália: uma provável fonte de inspiração

“Em 1980, um documento excepcional foi publicado pelo pesquisador Michael Dummett uma folha impressa de tarôs, não recortada, conhecida atualmente como “folha Cary” (do nome de seu último proprietário particular). Essa folha é notável por ser o mais antigo documento de que se tem conhecimento hoje e que apresenta esses elementos simbólicos, encontrados no Tarô de Jean Noblet. Proveniente de Milão e datada de cerca de 1500, ela permite compreender que os símbolos do chamado “Tarô de Marselha” provavelmente também são originários da Itália.”

NADOLNY, Isabelle. História do TarôUm estudo completo sobre suas origens, iconografia e simbolismo. Ed. Pensamento, 2022, pág. 104.

Trata-se de mais um jogo “internacional”

“Trata-se de mais um jogo “internacional”, por assim dizer, o que nos leva a nos
perguntarmos se o que originou o modelo do Tarô “de Marselha” também não teria recebido influências diversas. O fato de se ter constatado que o tarô com 22 trunfos e quatro sequências surgiu na Itália, mas que as numerações e denominações de trunfos são francesas, pode ser suficiente para nos convencer. O que se costuma chamar de “Tarô de Marselha” é, a princípio, o resultado de diferentes jogos. A posteriori, é também um modelo de jogo que sobre viveu melhor do que outros, e veremos como.”

NADOLNY, Isabelle. História do TarôUm estudo completo sobre suas origens, iconografia e simbolismo. Ed. Pensamento, 2022, pág. 103.

O mais antigo tarô francês

“Provavelmente o tarô chegou à França passando por Lyon, que adaptou os jogos italianos. Em seguida, prosperou a partir de Lyon. Paris e Rouen, onde haviam sido implantadas as principais manufaturas de cartas do reino.”

Vale notar que em Marselha ainda não havia nenhum fabricante de cartas. Foi preciso esperar até 1634 para citar o mais antigo fabricante de cartas marselhês: Jean Pradines. Além disso, sabemos que em 1642 os fabricantes
de cartas de Lyon se queixavam que os de Marselha falsificavam seus produtos. Isso confirma o seguinte fato: o Tarô “de Marselha”, na forma que o conhecemos, não foi criado em Marselha.”

NADOLNY, Isabelle. História do TarôUm estudo completo sobre suas origens, iconografia e simbolismo. Ed. Pensamento, 2022, pág. 100.

O inventor do Tarô de Marselha

“Marsílio Ficino, outro grande literato do Renascimento do qual voltaremos a tratar com o hermetismo. Ele tem de ser evocado, pois costuma ser citado atualmente como o autor do tarô. Como nasceu em 1433, não poderia ter concebido o jogo de 22 trunfos e 56 cartas que surgiu pela primeira vez em 1440. No entanto, segundo alguns ensaístas, ele teria sido o inventor do Tarô de Marselha. Portanto, teria se inspirado no tarô italiano, que não foi criado por ele. Por outro lado, teria incorporado a ele gravuras diferentes, impregnadas de hermetismo e neoplatonismo, ou seja, as figuras do Tarô de Marselha. Veremos em alguns instantes que esse tarô, com as figuras que conhecemos e os nomes das cartas inscritos em francês, surgiu cerca de trezentos anos mais tarde. Fazer de Marsílio Ficino seu criador é um tanto arriscado…

(…)

O que nos leva a nos perguntarmos quem foi o criador das imagens que aparecem precisamente no Tarô de Marselha. Talvez um gravador de moldes de cartas. Quem desenhou ο molde? Não se sabe. Tudo o que se pode dizer é que muito provavelmente foi um francês que vivia sob o reinado de Luís XIV, pois os mais antigos tarôs comprovados com base no modelo do chamado Tarô de Marselha são baralhos franceses desse período.”

NADOLNY, Isabelle. História do TarôUm estudo completo sobre suas origens, iconografia e simbolismo. Ed. Pensamento, 2022, pág. 91.