Asfixia

“Quanto mais aprendemos sobre ciência, mais percebemos que seus maravilhosos mistérios são todos explicados por umas poucas leis simples tão interligadas e tão dependentes umas das outras, que vemos a mesma mente animando todas elas. (Olympia Brown, 1835-1900)

(…)

A asfixia é um estado químico e fisiológico que resulta da incapacidade de se obter o oxigênio adequado para o metabolismo das células e para eliminar o excesso de dióxido de carbono.

(…)

Hynek tentou confirmar as alegações de LeBec com uma observação que ele fez enquanto servia no exército austro-germânico na Primeira Guerra Mundial. Hynek testemunhou o enforcamento de soldados condenados pendurados pelos pulsos com seus pés pouco acima do chão. Os tinham que se erguer para expelir o ar dos pulmões. Depois de um curto período, ocorreram violentas contrações de todos os músculos, causando severos espasmos. O indivíduo torturado tinha extrema dificuldade para expirar, causando a asfixia. Isso durava cerca de dez minutos, e depois ele era retirado da forca. Barbet reforçou as observações de Hynek com o depoimento de dois prisioneiros do campo de concentração de Dachau, que também testemunharam o enforcamento de um condenado de modo similar. Os prisioneiros recordaram que o condenado tinha dificuldade para respirar e continuamente erguia o corpo num esforço para tomar fôlego, até que ficou muito exausto e morreu por asfixia.

Ambas as observações são muito interessantes, mas somente seriam válidas quando aplicadas a indivíduos cujos braços estão suspensos diretamente acima da cabeça e as pernas pendendo livres. Além do mais, isso não é aplicável de forma alguma à suspensão na cruz; seria como comparar maçãs com laranjas.

(…)

O padrão de bifurcação do ferimento do pulso não se deve ao fato de inclinar e retesar o corpo, como foi presumido por Barbet, porque experiências revelam que o ângulo do pulso não muda quando o corpo é retesado. (…) Além disso, se os pulsos tivessem sido mesmo pregados, particularmente com um prego quadrado, eles estariam firmemente fixados, impedindo qualquer mudança no ângulo.

É possível que, quando o prego foi removido do pulso de Jesus, um coágulo ou sangue seco foi perturbado, fazendo com que o sangue escorresse durante a remoção da cruz. 

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O ato de quebrar as pernas, chamado skelokopia ou crurifragium, foi o argumento final a priori de Barbet para apoiar sua teoria de que Jesus teria morrido por asfixia. De acordo com Barbet, se as pernas estivessem quebradas, o crucarius estaria impossibilitado de se erguer para respirar. O ritual do crucifagium  era comumente executado quando a vítima se encontrava a beira da morte, como uma espécie de golpe de misericórdia para apressar o processo causando um severo choque traumático e hemorrágico. (…) Uma única fratura em um osso femoral (o osso da coxa), pode resultar na perda de dois litros de sangue, e mais de quatro litros serão perdidos se os dois ossos femorais forem fraturados. A quebra das pernas causaria uma grave hipovolemia, acrescida à perda de sangue e de fluidos corporais por causa do açoitamento, da hematidrose e do suor excessivo, além da perfuração dos pés e mãos, do tempo na cruz etc. Em alguns casos, uma volumosa embolia pode ocorrer, resultando em morte rápida. Como o crucarius já se encontrava em severa condição de a fraqueza por causa do choque, a acentuada hemorragia resultante da fratura dos ossos das pernas e a violenta dor iriam aprofundar o nível do choque traumático e hipovolêmico, com consequente queda na pressão sanguínea e rápido congestionamento nas extremidades inferiores, resultando em perda da consciência, coma e morte. (…) O crurifragium tinha uma segunda função – prevenir que a vitima se arrastasse depois da remoção da cruz se ainda estivesse viva e, assim, evitar que fosse devorada por animais selvagens.

(…)

É interessante notar, do ponto de vista da patologia forense, que em um caso de crucificação real, os pés e mãos estariam extremamente inchados e doloridos pelo fato de estarem pregados à estaca e à barra horizontal, respectivamente, ambos piorando com o tempo. Qualquer pressão feita contra os pregos nos pés seria completamente intolerável.

É interessante notar que o professor Baima Bollone repudiou a hipótese de asfixia com base no fato de que Jesus não poderia falar se Ele estivesse com falta de oxigênio, e é sabido que Ele fez isso várias vezes enquanto esteve na cruz.

(…)

1) Os resultados desses estudos desmentem esmagadoramente a teoria da asfixia como causa da morte.

2) Não existe dificuldade para respirar na posição da cruz.

3) A posição dos voluntários na cruz foi completamente compatível com os critérios postulados por Barbet.

4)  Os testes de oximetria auricular, gases do sangue e testes respiratórios complementares mostram evidências de que o nível de oxigênio permaneceu normal ou aumentou.”

ZUGIBE, M.D, Ph.D. Frederick T.  A Crucificação de Jesus: As Conclusões surpreendentes sobre a morte de Cristo na visão de um investigador criminal. São Paulo: MATRIX, 2008, pág. 131-155.

Crucificação

“De acordo com Plínio, a crucificação foi inventada por um homem chamado Tarquinius Priscus e começou a ser usada por volta de 260 e 160 a.C. Porém, a literatura milenar indica que ela já estava presente no século VI a.C. (…) Cícero, no século I a.C., em suas orações contra Verres (II 5,2-67), citou a crucificação como “a mais cruel e atroz das punições”.

(…)

A crucificação era disseminada antes do nascimento de Cristo e acredita-se que seja oriunda da Ásia, embora alguns historiadores creiam que tenha se originado na região da Ásia Menor, com os assírios, fenícios e persas por volta do século VI a.C. Esses povos eram famosos por suas técnicas de tortura, que incluíam empalação, fervura em óleo, afogamento, espancamento e crucificação.

(…)

Jerusalém em 1968, quando trabalhadores de construção acidentalmente encontraram uma tumba judaica contendo mais de 30 esqueletos. Em um ossário que continha a inscrição “Jehohanan o filho de HGQWL”, havia um esqueleto de um jovem de cerca de 20 anos de idade que tinha sido crucificado com um prego de aço, ainda afixado ao osso do calcanhar. A questão frequentemente levantada é: por que não existe evidencia antropológica, já que ocorreram milhares de crucificações? (…) De acordo com Joe Zias, que foi curador de Arqueologia e Antropologia para o Israel Antiquities Authority de 1972 a 1997, os pregos usados na crucificação tinham grande demanda, já que muitos acreditavam que possuíam poderes mágicos e afastavam o mal, curavam enfermidades e serviam como amuletos da sorte. Eles eram retirados dos mortos logo depois da crucificação e, em muito casos, roubados das tumbas.

Sem a presença dos pregos, a crucificação não deixa sinais definitivos patognomônicos nos espécimes antropológicos. Além disso, durante as crucificações em massa, as vítimas eram retiradas da cruz e amontoadas em pilhas, para que os animais selvagens e aves de rapina as devorassem, espalhando, assim, seus ossos. (…) Os pregos também eram constantemente reaproveitados para subsequentes crucificações.

Hengel cita o testemunho de Sêneca sobre esse tópico: “Eu vejo cruzes lá, não de um formato apenas, mas construídas de diversas maneiras; algumas têm suas vítimas com a cabeça batendo no chão. Outras empalam suas partes íntimas e outras mantêm os braços do condenado esticados no patibulum” (Hengel, 1977).

(…)

As colunas das cruzes (stipes ou staticulum) eram deixadas afixadas permanentemente no chão de uma área elevada nos arredores da cidade do lado de fora dos muros, para que os crucificados ficassem expostos aos olhos de todos.

(…) cruzes altas eram reservadas primariamente para criminosos especiais, que de alguma forma houvessem desonrado um romano. Em geral, as cruzes romanas mediam em torno de 2 metros de altura já que, em termos práticos, era mais fácil posicionar a barra horizontal (patibulum), mais pesada por causa da vítima nela pregada, numa cruz mais baixa.

O sedile era usado principalmente quando os executores queriam que a vítima permanecesse viva por mais tempo, às vezes dias seguidos.

(…)

O suppedaneum, um suporte colocado embaixo dos pés e que é visto em muitos crucifixos e pinturas, parece ser uma invenção de artistas, que nenhuma literatura faz menção a ele, e o objeto também nunca foi visto em cruzes antigas.”

ZUGIBE, M.D, Ph.D. Frederick T.  A Crucificação de Jesus: As Conclusões surpreendentes sobre a morte de Cristo na visão de um investigador criminal. São Paulo: MATRIX, 2008, pág. 69-78.

 

 

 

A Estrada para o Calvário

“Em estado lastimável, Jesus flagelado foi levado ao pretório pelos soldados. Seu corpo estava cruelmente desfigurado e atormentado pela dor do terrível açoitamento, Sua visão estava embaçada. Coberto de sangue por causa das lacerações, escoriações e machucados que cobriam Seu corpo, Ele mal podia ficar de pé. Secreções e vômito manchavam Seu rosto e a vestimenta.

(…)

Figura: 4-1

a) cruz simples (simples estada;  b) crux immissa ou crux capitata (convencional)  c) cruz commissa (T ou cruz Tau) d) crux descussata  (cruz de Santo Andé).

Nossos experimentos de suspensão, em que utilizamos a crux commissa (cruz tau), revelaram que havia espaço adequado para o titulus. Parece, então, que a cruz romana foi invenção dos artistas.

(…) seria também muito difícil -em alguns casos, impossível -o crucarius carregá-la, já que ela pesava de 80 a 90 quilos; ainda mais no caso de uma pessoa que já tivesse sido açoitada antes da crucificação. E essa cruz parecia ser pouco prática, pois seria necessário um número muito grande delas, tendo em vista que os persas e os romanos ordenavam centenas e até milhares de crucificações de uma vez só. Essas crucificações em massa demandariam que muitas cruzes fossem fabricadas antecipadamente, pois cada crucarius devia ser pregado com a cruz ainda no chão, para que depois ela fosse erguida e fixada no solo – algo muito complexo para ser feito de forma massiva. Além disso, a maioria das referências históricas relata que as estacas já ficavam no chão, do lado de fora dos portões da cidade. Isso indica que o crucarius era pregado no patibulum, que seria então inserido na cavidade retangular presente no topo da estaca.

(…)

Estudos micropaleobotânicos de fragmentos de supostas relíquias da cruz verdadeira indicam que ela foi feita de pinheiro, O estudo mais definitivo, no entanto, foi feito num fragmento de madeira descoberto na ponta de um prego afixado ao osso do calcanhar de um homem crucificado por volta do ano 7 d.C., e que foi encontrado em escavações no Bairro Judeu da cidade velha de Jerusalém em 1969-70.

O estudo paleobotânico desse pedaço de madeira o relacionou com a oliveira (…)

(…)

O título, também conhecido como Titulus Crucis, era uma tábua com a descrição da natureza do crime do crucarius, e era pregada na cruz logo acima da cabeça da vítima. A tábua era carregada pelo condenada geralmente pendurada ao pescoço, do local da condenação até o do suplício na cruz.

(…)

(…) havia um uso para as três línguas em Jerusalém. O latim era a língua dos funcionários administrativos, o aramaico era falado pelos judeus da época e o grego era a linguagem do comércio internacional e da cultura.”

ZUGIBE, M.D, Ph.D. Frederick T.  A Crucificação de Jesus: As Conclusões surpreendentes sobre a morte de Cristo na visão de um investigador criminal. São Paulo: MATRIX, 2008, pág. 55-62.

 

Reconstituição Forense

“Depois da flagelação, a condição de Jesus era relativamente grave. Ele estava prestes a sofrer um choque traumático em razão dos ferimentos causados pelas chibatadas-particularmente na caixa torácica e nos pulmões-e pelos maus-tratos anteriores, na residência de Caifás. Além disso, um quadro de hipovolemia (baixo volume de sangue) se desenvolvia por causa da baixa efusão pleural, da hematidrose, das pequenas hemorragias resultantes da flagelação, do vômito e da transpiração.

É importante notar que o brutal espancamento na caixa torácica poderia ter afetado os pulmões e ocasionado a concentração de fluido no local. O fluido, misturado ao sangue, deve ter aumentado algumas horas depois dos golpes no peito, dificultando a respiração e causando dor extrema. O termo pulmão molhado traumático refere-se a acúmulo de sangue, líquido e muco depois de um violento trauma no tórax.”

ZUGIBE, M.D, Ph.D. Frederick T.  A Crucificação de Jesus: As Conclusões surpreendentes sobre a morte de Cristo na visão de um investigador criminal. São Paulo: MATRIX, 2008, pág. 39-40.

 

Flagelo Romano

“O pretório (sala de julgamento) era o local onde o pretor exercia sua função, sobre o pavimento da fortaleza romana de Antônia, localizada na “mais alta das colinas” (Flávio Josefo, A Guerra Judaíca).

(…)

Um castigo brutal e desumano, executado pelos soldados romanos, que usavam um dos mais terríveis instrumentos da época, chamado ou, nas palavras de Horácio, “o horrível flagelo”. A flagelação era um procedimento normal entre os romanos antes da crucificação. Muitos acham que no açoitamento era usado um chicote comum. De certa forma isso é correto, mas seria como comparar um choque elétrico a um raio. O flagrum era confeccionado de várias formas, sendo que a mais corriqueira era a de um chicote de couro com três ou até mais extremidades também de couro, com bolinhas de metal, ossos de carneiro (astragals) e outros objetos pendurados ao final de cada uma (Figura 2-1). Esse tipo de flagrum é o mais compatível com as descobertas relativas ao Sudário.

Figura:  2-1

O Flagrum romano. Extremidades de couro com pesos de metal em forma de haltere. Compare o formato desses pesos com as marcas de açoitamento no Sudário, na figura 2-4.

(…)

Os romanos não tinham nenhuma lei que regulamentasse o número de golpes que poderiam ser aplicados. Em compensação, era contra a Lei Mosaica exceder 40 chibatadas, e 39 era um número usualmente aplicado para estar de acordo com a lei.

A ordem de Pilatos para que Jesus fosse açoitado de forma tão extrema foi baseada em seu desejo de aplacar a multidão, pois tinha medo de que a massa o denunciasse ao imperador ou que se iniciasse uma revolução.

(…)

(…) a vitima era despida e presa pelos pulsos a um objeto fixo, com uma coluna rebaixada, forçando-a a ficar curvada, o que facilitava trabalho do carrasco. (…)  O soldado ficava de pé ao lado da prisioneiro com o flagrum na mão e, ao receber a ordem, lançava o instrumento de couro para trás das costas, girava o pulso e golpeava as costas nuas do prisioneiro como se fosse um arco. (…)  Os pedaços de metal penetravam na carne, rasgando vasos sanguíneos, nervos, músculos e pele.

Figura: 2-4

Marcas de Flagelação na parte de trás do Sudário de Turim. Relativamente bem definidas, elas correspondem aos objetos em forma de haltere do flagrum (Cortesia de Barrie Schwortz).

Você já recebeu um golpe na costela, como um soco ou uma bolada de beisebol? (…) A respiração se toma superficial, já que uma inspiração profunda provoca dor. A isso se chama tensão nos músculos.

Depois do açoitamento, aparecem no corpo da vítima enormes feridas (com matizes de preto, azul e vermelho), lacerações, arranhões e inchaço, basicamente ao redor das perfurações feitas pelo peso dos objetos ou scorpiones. (…) As vítimas esperneavam, se contorciam em agonia, caindo de joelhos, mas eram forçadas a se levantar novamente, até não poder mais. A respiração do açoitado era severamente afetada, porque os golpes no peito causavam dores excruciantes toda vez que ele tentava recuperar o fôlego. Os músculos intercostais, entre as costas e os músculos do peito, apresentavam hemorragia, e os pulmões eram lacerados, frequentemente colapsados – todos esses fatores impunham à vítima extrema dor quando tentava respirar.

(…)

Períodos de intensa transpiração ocorriam intermitentemente. A vítima era reduzida a uma massa de carne, exaurida e destroçada, ansiando por água. A flagelação levou Jesus um prematuro estado de choque. Nas horas seguintes, houve um vagaroso acúmulo de fluido (efusão pleural) ao redor de Seus pulmões, causando dificuldades na respiração.”

ZUGIBE, M.D, Ph.D. Frederick T.  A Crucificação de Jesus: As Conclusões surpreendentes sobre a morte de Cristo na visão de um investigador criminal. São Paulo: MATRIX, 2008, pág. 32-36.

 

Sofrimentos Preliminares

“A) GENERALIDADES

(…) OS traumatismos produzem na pele lesões diversas, cujos vestígios no Santo Sudário diferem notavelmente segundo sua natureza profundidade.

(…)

B) SEVÍCIAS DA NOITE E DO PRETÓRIO

Sobre o rosto se encontram escoriações um pouco por toda a parte, mas sobretudo do lado direito, que está também deformado, como se, sob as esfoladuras sangrentas, houvesse também hematomas. As duas arcadas superciliares apresentar aquelas chagas contusas, que tão bem conhecemos, e que se fazem de dentro para fora, sob a influência de um soco ou paulada; os ossos da arcada cortar a pele pelo lado interno.

Mas a lesão mais evidente é uma grande escoriação de forma triangular na região suborbitária direita. A base tem dois centímetros, a ponta se dirige para cima e para dentro, para atingir outra zona escoriada no nariz entre o terço médio e o superior. Neste nível o nariz e está deformado por uma fratura da cartilagem dorsal, bem perto de sua inserção no osso nasal, que ficou intacto.

C) FLAGELAÇÃO

Já conhecemos o instrumento de suplício, o “flagrum” romano, cujas correias levavam a uma certa distância das pontas duas bolas de chumbo ou dois ossinhos, “talus” de carneiro. Seus vestígios se encontram com abundância no Sudário, e aparecem distribuídos por todo o corpo, das espáduas até as pernas. A maioria está na parte posterior, indício de que Jesus estava amarrado com o rosto contra a coluna e as mãos amarradas no alto, pois não ficaram vestígios nos antebraços, que de resto estão bem nítidos no Sudário. Não teriam deixado de receber alguns golpes se estivessem amarrados embaixo. Encontram-se também, e bem numerosos, sobre o peito.

Convém acrescentar que só deixaram marca de si os golpes que produziram escoriação ou chaga contusa. Todos os que não provocaram senão equimoses não deixaram vestígios na Mortalha. Contê-lo mais de 100, talvez 120, o que perfaz, se é que havia duas correia cerca de 60 golpes, sem contar os que não deixaram marca.

(…)

Estão quase todas dispostas em pares paralelos, o que faz supor duas correias em cada “flagrum”.

Acrescentaremos ainda que Jesus estava inteiramente nu, Pois vemos este tipo de chagas, em forma de haltere, em toda a região pelviana, tão profundas como no resto do corpo, o que não teria acontecido se estivesse coberta pelo “subligaculum”.

Por fim, notemos que os carrascos deviam ter sido dois e que eram de estatura diferente, uma vez que a obliquidade dos golpes no é a mesma dos dois lados.

D) COROAÇÃO DE ESPINHOS

Lucas não fala da coroação. Marcos escreve: “Peritithéasin autõ plléxantes akanthinon stéphanon – Cingiram-no com uma coroa de espinhos que tinham acabado de tecer” (15,17). Mas não indica com isto a forma; Mateus e João são mais explícitos: “Pléxantes stéphanon ex akathõn, epéthekan epi tês kephalês autou-Tendo tecido uma coroa de espinhos, colocaram-na sobre a cabeça dele” (27,29).

São Vicente de Lérins (Sermo in Parasceve) escreverá mais tarde: Impuseram-lhe na cabeça uma coroa de espinhos, que era à maneira de ‘pileus’ (= carapuça, gorro), de sorte que por todos os lados lhe cobria e tocava a cabeça. E acrescenta que produzira essa carapuça 70 ferimentos. -O “pileus’ era, entre os romanos, uma espécie de gorro semioval, de feltro, que envolvia a cabeça e servia principalmente para o trabalho.

(…) a coroa era uma espécie de gorro, formado de ramos espinhosos entrelaçados, e não um anel.

Admite-se, geralmente, que pertencem a um arbusto de espinhos comum na Judeia, o Zizyphus Spina Christi”, uma espécie de açofeifeira (árvore da família das ramnáceas, também conhecida por jujubeira). (…) O couro cabeludo sangra muito e com facilidade; como este chapéu foi enterrado a pauladas, os ferimentos produzidos devem ter feito correr bastante sangue.

(…) Ora essa coroa não tem espinhos, é um simples círculo de juncos trançados. Mas tudo se explica perfeitamente, pois foi com esses juncos que os soldados, depois de terem aplicado o chapéu de espinhos na cabeça de Jesus, o fixaram, apertando-o na frente e na nuca.

(…)

O sangue foi obrigado a se acumular aí, lentamente, onde se pôde coagular com todo vagar, de onde a extensão em largura, o crescimento em altura e o aumento em espessura do coágulo.

Há ali um obstáculo, que está evidentemente na região onde o feixe de juncos cingia a parte inferior da testa, por cima das arcadas das sobrancelhas. Uma das hastes de junco estava transversalmente comprimida sobre a pele da testa: há ali faixa horizontal, sem coágulos, em toda a extensão da testa; à direita e à esquerda para os = lados, dois coágulos se detêm, nitidamente, no mesmo nível e bem se pode seguir em seu conjunto o trajeto da faixa.”

BARBET, Pierre. A Paixão de Cristo, segundo o cirurgião. São Paulo: Edições Loyola, 2014, pág. 97-103.

 

Divindades Semíticas

“Os JUDEUS, como seus vizinhos, os fenícios e os árabes, não admitem que seus deuses descansam um momento sequer sobre o vento.

Cuidam demais de sua divindade e observam-se em demasia uns aos outros nas suas orações, cultos e sacrifícios.

Enquanto nós, romanos, construímos templos de mármore a nossos deuses, esse povo põe-se a discutir a natureza de seu Deus. Quando estamos em êxtase, cantamos e dançamos em volta dos altares de Júpiter e Juno, de Marte e Vênus; mas eles, em seu arrebatamento, usam vestes de estopa e cobrem as cabeças com cinzas – e até lamentam o dia que lhes deu nascimento.

E Jesus, o homem que revelou Deus como um ser de alegria, eles O torturaram, e depois O levaram à morte.

Esse povo não seria feliz com um deus feliz. Conhece apenas os deuses da sua dor.

Mesmo os amigos e discípulos de Jesus, que conheciam Sua alegria e ouviam Sua risada, criam uma imagem de Sua tristeza, essa imagem.

E na sua adoração não se elevam à altura da sua divindade; mas abaixam. divindade ao nível deles. Creio, todavia, que esse filósofo, Jesus, que não era diferente de Sócrates, terá poder sobre Sua raça e talvez sobre outras raças. Pois nós somos todos criaturas de tristeza e de pequenas dúvidas. E quando um homem nos diz: “Sejamos alegres com os deuses”, não podemos deixar de prestar atenção à sua voz. É estranho que a dor deste homem tenha sido convertida num rito. Esses povos gostariam de descobrir um segundo Adonis, um deus assassinado na floresta, e de celebrar sua morte. E pena que eles não ouçam o Seu riso. Mas confessemos, de romano para grego. Ouvimos, nós mesmos, a risada de Sócrates nas ruas de Atenas? Conseguimos jamais esquecer a taça de cicuta, mesmo no teatro de Dionísio?

E nossos pais não gostam ainda de parar às esquinas para tagarelar sobre aflições e ter um instante feliz, lembrando o lúgubre fim de todos nossos grandes homens?”

GIBRAN, Gibran Khalil.  Jesus, o Filho do Homem. Tradução: Mansour Challita. Associação Cultural Internacional Gibran, 1973, pág. 119-120.

A Fogueira

“Uma estimativa grosseira do número total de pessoas queimadas, enforcadas ou torturadas até a morte sob acusação de Bruxaria é nove milhões. Obviamente nem todas eram seguidoras da Antiga Religião. Tratava-se de uma ótima oportunidade para alguns se verem livres de qualquer cum contra o qual tivessem algum rancor.”

Buckland, Raymond. Livro completo de bruxaria de Raymond Buckland: tradição, rituais, crenças, história e prática. Editora Pensamento Cultrix, São Paulo, 2019, p. 40.