O Nada, a Mentira e a Corrupção dos Mundos

“Você se julga real, filhinho? Pois bem, aqui, neste mundo, você é. Mas, se entrar no Nada, deixa de existir. Você se tornará irreconhecível. Passará a existir num outro mundo. Nesse mundo vocês deixam de ser aquilo que eram. Levam ao mundo dos homens a cegueira e a ilusão. Sabe o que aconteceu a todos os habitantes da Cidade-Fantasma que se lançaram no Nada, filhinho?

— Não — gaguejou Atreiú.

— Transformaram-se em desvarios da mente humana, em imagens geradas pelo medo, quando, na realidade, não há nada a temer, em desejo de coisas que os tornam doentes, em ideias de desespero quando não há razões para desesperar.

(…)

— É por isso que os homens temem e odeiam Fantásia e tudo o que dela vem. Querem aniquilá-la. Mas não sabem que, ao fazê-lo, aumentam a torrente de mentiras que cai ininterruptamente em seu mundo — essa torrente de seres desfigurados, tão diferentes do que eram em Fantásia, e que são obrigados a levar, no mundo dos homens, uma existência de cadáveres vivos, envenenando a alma dos homens com seu odor putrefato. Os homens não sabem disso! Não é divertido?

(…)

Só não pensarão em visitar Fantásia se pensarem que ela não existe. E tudo depende disso; pois, enquanto não conhecerem sua verdadeira natureza, vocês podem fazer deles o que quiserem.

— Fazer deles o quê?

— Tudo o que quiserem. Vocês têm poder sobre eles. E nada tem mais poder sobre o homem do que a mentira. Porque os homens, filhinho, vivem de ideias. E as ideias podem ser dirigidas. Esse poder é o único que conta. É por isso que eu tenho estado do lado do poder e o servi, para poder participar dele… embora de forma diferente da sua e da dos seres iguais a você.

(…) — Quando chegar a sua vez de saltar para o Nada, você se transformará também num servidor do poder, desfigurado e sem vontade própria. Quem sabe para o que vai servir? É possível que, com sua ajuda, se possam convencer os homens a comprar o que não necessitam, a odiar o que não conhecem, a acreditar no que os domina ou a duvidar do que os podia salvar. Por seu intermédio, pequenos seres de Fantásia, fazem-se grandes negócios no mundo dos homens, desencadeiam-se guerras, fundam-se impérios.

(…)

Quanto mais se alastrava a destruição em Fantásia, maior era o número de mentiras que entrava no mundo dos homens; precisamente por isso, a cada segundo que passava, diminuía a possibilidade da vinda de um ser humano.

Agora ele sabia por que não só Fantásia, mas também o mundo dos homens estava doente. As duas coisas estavam relacionadas. De fato, ele já desconfiava disso há muito tempo, mas não sabia explicar por que era assim. Nunca quisera aceitar que a vida fosse tão cinzenta e indiferente, tão pouco misteriosa e maravilhosa como pretendiam as pessoas que diziam: a vida é assim!

ENDE, Michael. A História sem fim.São Paulo: Martins Fontes, 2022, pág.160-162.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Gostei e vejo sentido em compartlhar essa ideiA

Facebook
Twitter
Pinterest

QUER MAIS?