A Morte

Diferentes denominações: la Morte, la Mort.

Outras posições ocupadas no tarô: sempre número XIII, seja qual for o tarô.

Etimologia e significados do termo morte: do latim mors, mortis. Por significar “a Grande Ceifadeira”. não apresenta um sentido etimológico especial, mas se pode dizer que os primeiros autores que escreveram sobre o tarô não hesitaram em nomeá-la. Por isso, na seção “significados divinatórios”, exposta abaixo, ela é denominada “Morte”. Os autores contemporâneos, diferentemente, designam-na com a expressão “arcano XIII”.

Sobre a Morte

No século XIII, cinco poemas evocam uma conversa entre três mortos e três vivos. Citam três jovens senhores, mais tarde três reis, que se encaminham a um cemitério. De repente, três mortos aparecem. Os cadáveres iniciam uma conversa moralizadora e didática com os vivos, cujo tema se resume ao seguinte: “Outrora fomos homens como vós; logo sereis como nós agora”. Já na Antiguidade romana havia textos que convidavam o leitor a considerar a frágil brevidade da vida.

Assim, em Satíricon, de Petrônio, é possível ler: “Ó miséria! Ó piedade! O homem nada é! Quão frágil é a trama de sua existência! Tal será junto a Plutão vosso estado e o meu: vivamos, pois, enquanto a idade nos convida a aproveitar…” No Ocidente cristão, essa admoestação se expande de modo considerável na literatura e na iconografia, exortando quem medita não a aproveitar a vida, mas a se preparar para o seu fim não apenas inelutável, mas também pronto a se abater sobre ele a qualquer momenento. As ilustrações da narrativa acima, a “Lenda dos três mortos e dos três vivos”, multiplicam-se: inicialmente, os três mortos são representados como homens magros, de depois como esqueletos completamente descarnados, “ossos secos”, de acordo com a descrição do livro de Ezequiel (XXXVII, 4). Vários autores, a maioria desconhecida, compuseram poemas francês, espanhol etc.), chamados de “danças da morte” ou “danças macabras”, nas quais um morto, ou a morte, convida os vivos de todas as classes sociais (até mesmo reis e papas) a irem com ele ou ela para participar de sua dança e a acompanharem no além. Em pouco tempo, é o esqueleto, e não mais um cadáver em particular, a aparecer para representa a ideia abstrata de Morte: ele personifica a Morte, menos como uma simples alegoria do que como um agente sobrenatural que substituiu os anjos, santos ou demônios para executar as ordens de Deus. Ele não tarda a triunfar, esmagando suas vítimas sem que elas percebam. Esse triunfo da Morte é extraordinário nas obras de arte a partir do final do século XIV e talvez tenha inspirado os autores do tarô. Para compreender o efeito impressionante dessa Morte triunfal, o leitor pode digitar em um site de busca a expressão “triunfo da Morte” e deixar-se surpreender por uma enorme quantidade de obras antigas assustadoras, repletas de esqueletos que chegam para recolher cadáveres. Isso porque a grande peste negra dos anos 1340, que matou mais de um quarto da população do Ocidente cristão, ainda está presente com sua marca traumática e seu caráter endêmico. O Triunfo da Morte, de Pieter Bruegel, o Velho, é um quadro particularmente impressionante, repleto de esqueletos que tentam levar o maior número de vivos à morte, de todas as maneiras possíveis.

De forma mais leve, por assim dizer, o triunfo do esqueleto psicopompo (ou seja, que acompanha as almas até o além) pode ser explicado pelo sucesso crescente do estudo da anatomia no Renascimento: os artistas aproveitaram para ilustrar os mortos com a máxima autenticidade possível, constituindo um movimento realista que atingiria seu apogeu com Les Écorchés [Os Estolados] de Fragonard. Assim, a representação da Morte por meio de um esqueleto é relativamente recente. Na Antiguidade, eram Hermes, Anúbis ou Mercúrio que acompanhavam os defuntos no além. Isso mostra que alguns taros “egípcios” puderam resvalar no anacronismo ridículo ao evocarem uma ceifadeira esquelética, cercada de hieróglifos, escrita de uma civilização que praticava a mumificação e cujas almas eram escoltadas pelo deus com cabeça de chacal. Na era cristã, cabia aos santos, aos anjos da guarda ou aos demônios enfrentarem-se ao redor da alma do moribundo no momento da passagem para o além; vencia o mais forte. Quanto aos cadáveres, por um bom tempo eles foram representados como figuras adormecidas, como as famosas estátuas de defuntos que ainda hoje podem ser admiradas nas igrejas medievais.

A foice é um instrumento agrícola, cujo uso remonta a tempos imemoriais. Em contrapartida, sua associação com o esqueleto também é recente. Nas imagens antigas, inicialemente o esqueleto é provido de muitas ferramentas diferentes: enxada, tesoura, lâmina, gaita, espada. Com frequência, o instrumento caracteriza a profissão da pessoa que a Morte quer levar consigo. Em seguida, a foice aparece com o esqueleto, em especial na obra de Petrarca, e esse poderoso instrumento, que tem uma pesada carga simbólica, reforça ainda mais o alcance dessa alegoria da morte. Com efeito, a foice provém originariamente da Biblia. Já no Antigo Testamento o profeta Joel atribui a Deus Pai uma foice ou foicinha, com a qual ele ceifará os pagãos (IV, 11-13). Mateus (XIII, 39) atribui a foice aos anjos, ceifadores das ervas daninhas que são os filhos do Maligno. No Apocalipse (XIV, 14-16), o filho do homem aparece sentado em uma nuvem, com uma foice afiada na mão. A mitologia grega não fica atrás ao evocar Cronos (equivalente de Saturno), figura alegórica do Tempo que devora seus filhos e ceifa tudo que se apresenta à sua frente. Entre os poetas latinos, o atributo da foice valeu a Saturno a denominação de Falciger: “aquele que carrega a foice”.

A essa pesada carga simbólica acrescenta-se o número 13, outrora considerado tão maléfico que, segundo a superstição, quando havia 13 pessoas à mesa, uma delas morreria ao longo do ano. Provavelmente essa consideração se baseava no fato de que os participantes da Santa Ceia eram 13.

As imagens do tarô refletem simplesmente as tradições que acabamos de evocar: não se vê nenhum acréscimo posterior nas cartas. Mas o que mais haveria de ser acrescentado a tal imagem? De resto, os primeiros autores do tarô tiveram certa dificuldade para lhe dar um sentido um pouco mais positivo. Em todo caso, talvez a ideia de transformação não fizesse parte do imaginário do século XV no que se refere a essa representação: “Preparai-vos para o inelutável que se abaterá brutalmente sobre vós” – é bem provável que essa tenha sido a primeira idea por ela transmitida.

Significado

1781, conde de Mellet

“A Morte ou o Thet indica a ação de varrer: com efeito, a Morte é uma varredora terrível.”

1783, Alliette: nº 17, a Morte

“Vale notar que a vinda da morte é necessária; porém, não se deve fazer confusão. Significa a morte, ou quase, na lâmina seguinte, o que na maioria das vezes representa um desconhecido, um projeto, um processo ou apenas uma visitinha de cortesia, o que nesse caso é ainda melhor.”

1909, Papus: 13, a Morte

Sentido espiritual: a imortalidade pela mudança. Sentido moral ou alquímico: a morte e o renascimento. Sentido físico (que também pode ser utilizado para a adivinhação): a transmutação das forças. Sentido divinatório: morte.

1927, Oswald Wirth: XIII, a Morte

Fatalidade inelutável, fim necessário, desencantamento, influência ativa de Saturno.

PARA O BEM. Aprofundamento, penetração intelectual, metafisica, desilusão, discernimento severo, sabedoria desiludida, indiferença, resignação.

PARA O MAL: Prazo fatal; fracasso inevitável, não provocado pela vítima. Desanimo, pessimismo, conversão absoluta, suspensão com o intuito de recomeçar em modo diametral mente oposto.

1949, Paul Marteau: lâmina XIII, a Morte

SENTIDO ELEMENTAR. As mudanças de estados de consciência do homem que acom panham a passagem de um ciclo concluído no ingresso em outro ciclo de natureza diferente.

SENTIDO CONCRETO. Essa lâmina não é designada pelo nome, uma vez que sua imagem representa a morte de modo clássico. Como esta não existe, não pode ser nomeada. Seu verdadeiro sentido é a transmutação.

MENTAL (a inteligência). Renovação das ideias, totalmente ou em parte, pois algo inter virá e transformará tudo, como um fenômeno de catálise, em que um corpo novo modifica por completo a ação dos corpos presentes.

ANÍMICO (as paixões emotivas). Distanciamento; dispersão na afeição; extirpação de um sentimento, de uma esperança.

FÍSICO (o lado utilitário da vida). A morte, a pausa de alguma coisa, a imobilidade. Nos negócios, transformação completa.

INVERTIDA. Estagnação do ponto de vista da saúde; a morte pode ser evitada, mas a doença é incurável. Dependendo do que a circunda, significa morte, cujos efeitos continuam além dela, nas ações ruins.

NADOLNY, Isabelle. História do TarôUm estudo completo sobre suas origens, iconografia e simbolismo. Ed. Pensamento, 2022, pág. 239-242.

Transformação das ideias em dominação

“A grande questão, porém, é se o poder emancipatório dessas idéias pode sobreviver a seu sucesso mundano. A resposta de Adorno a tal questão recende a melancolia: “A história das antigas religiões e escolas, como a dos partidos e revoluções modernas, nos ensina que o preço da sobrevivência é o envolvimento prático, a transformação das idéias em dominação”.

BAUMAN, Zygmunt.Modernidade líquida, Ed. Zahar, Local: 811.

Capítulo 1 | Emancipação

A teoria crítica revisitada

A dialética da inatividade

“A dialética da inatividade a transforma em um limiar, em uma zona de indeterminação que nos torna capazes de produzir algo que ainda não existia. Sem esse limiar, o igual se repete.”

HAN, Byung-Chul. Vita Contemplativa, ou sobre a inatividade. Ed. Vozes, 2023, Local 289.

Considerações sobre a inatividade

Inatividade é jejum espiritual

“A inatividade é, como tal, um jejum espiritual. Por isso que dela decorre um efeito curativo. A obrigação de produzir transforma a inatividade em uma forma de atividade a fim de explorá-la. É assim que mesmo o sono passa a ser considerado uma atividade.”

HAN, Byung-Chul. Vita Contemplativa, ou sobre a inatividade. Ed. Vozes, 2023, Local 154.

Considerações sobre a inatividade

Burnout e autoexploração

“O burnout, que em geral precede a depressão, não remete tanto àquele indivíduo soberano, ao qual falta a força para “ser senhor de si mesmo”. O burnout, ao contrário, é a consequência patológica de uma autoexploração. O imperativo da expansão, transformação e do reinventar-se da pessoa, cujo contraponto é a depressão, pressupõe uma oferta de produtos ligados à identidade.”

HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Ed. Vozes, 2022, Local 797.

Anexos: Sociedade do Esgotamento

Máquinas de desempenho

“A crescente positivação da sociedade enfraquece também sentimentos como angústia e luto, que radicam numa negatividade, ou seja, são sentimentos negativos. Essa ausência de negatividade arrisca transformar o pensamento num cálculo, transformando homem e sociedade em máquinas de desempenho.”

HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Ed. Vozes, 2022, Local 122. (Resumo)

Sociedade do Cansaço

Cristalização

“O ritmo é o último estágio do hábito! Qualquer pensamento ou movimento físico que seja repetido uma, duas ou mais vezes, por meio do princípio do hábito, finalmente alcança a proporção do ritmo. Então o hábito, a partir desse momento, não pode ser quebrado, porque a natureza o assume e o transforma em algo permanente.”

Hill, Napoleon. Mais Esperto que o Diabo: O mistério revelado da liberdade e do sucesso,Ed. Citadel, 2014, pág.97.