Amargante, a Cidade Flutuante de Prata

“Durante a travessia, Bastian soube, pelo barqueiro, que também usava uma túnica tecida de prata, que as águas cor de violeta do lago eram tão salgadas e amargas que, a longo prazo, nada podia resistir à sua ação corrosiva… nada a não ser a prata. O lago chamava-se Murhu ou Lago das Lágrimas. Em tempos muito antigos, a cidade de Amargante fora levada para o meio do lago, para ser protegida do ataque de seus inimigos, pois quem tentasse assaltá-la em barcos de madeira ou de ferro em breve afundaria, pois a água destruía e tragava em pouco tempo o navio e a tripulação. Mas agora Amargante permanecia no meio do lago por outra razão. Os habitantes gostavam de mudar as casas de lugar, modificando o aspecto da cidade, a posição de suas ruas e praças. Quando, por exemplo, duas famílias que habitavam pontos opostos da cidade se tornavam amigas ou parentes, porque seus filhos se casavam, deixavam o lugar onde habitavam anteriormente e colocavam seus barcos lado a lado, tornando-se vizinhas. A prata era de especial qualidade, diga-se de passagem, e tão única como a beleza incomparável do seu trabalho.

Bastian gostaria de ouvir mais sobre o assunto, mas a barcaça chegara à cidade e ele teve de descer juntamente com seus companheiros de viagem.”

ENDE, Michael. A História sem fim.São Paulo: Martins Fontes, 2022, pág. 267.

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