Experiências grupais e isolamento

Percebendo a necessidade do homem moderno de sair do seu isolamento urbano, as igrejas, por um lado, e os movimentos de esquerda, pelo outro, tentam acompanhar o ritmo e oferecem todos os tipos de experiências. Isso, contudo, significa botar a carroça na frente dos bois e só pode levar ao desastre, porque impede que o evento interno salvador ocorra, a experiência do Si-mesmo pelo indivíduo. O Si-mesmo só pode ser encontrado quando estamos sozinhos, porque, como escreve Jung: “O paciente precisa estar sozinho para encontrar o que o sustenta quando ele já não é capaz de se sustentar. Somente essa experiência pode fornecer a ele uma base indestrutível.

O analista responsável, portanto, prefere o tratamento individual à melhora coletiva; isso está de acordo com a experiência de que as influências sociais e coletivas geralmente só produzem uma intoxicação em massa, e que somente a ação do homem sobre o homem é capaz de realizar uma verdadeira transformação.

No início, a pessoa experimenta um grande alívio, ao se sentir protegida por um grupo e removida de si mesma. No grupo, portanto, a sensação de segurança aumenta e a sensação de responsabilidade diminui. A sugestibilidade também aumenta enormemente, fato esse que inclui, contudo, a perda da liberdade, porque a pessoa cai nas mãos de influências boas e más do ambiente. Até mesmo um pequeno grupo é dominado por um espírito sugestivo do grupo. Se o espírito for bom, ele pode ter efeitos sociais positivos, mas isso é pago com a diminuição da independência mental e ética do indivíduo. À medida que o grupo reforça o ego, a pessoa fica mais corajosa, ou até impertinente, mas o Si-mesmo é empurrado para os bastidores. É por isso que os fracos e inseguros querem pertencer a organizações.

Mas como o homem está sempre inclinado a se agarrar aos outros, ou a participar de “ismos”, em vez de procurar uma força independente em si mesmo, surge o perigo de que a pessoa veja no grupo um pai ou uma mãe e continue tão infantil e insegura quanto antes.

Já foi objetado que, se a pessoa estiver fazendo ao mesmo tempo uma análise individual, as experiências grupais a complementam. Já fui testemunha, contudo, e isso me foi confirmado por outras pessoas, que a participação em uma experiência grupal costuma perturbar, em vez de ajudar, a análise individual, porque levanta problemas no momento errado, ao passo que, na análise individual, o inconsciente pode “escolher” o momento adequado da constelação deles.

(…)

Quem são, precisamos perguntar, os analistas que gostam de conduzir experiências em grupo? Frequentemente encontram motivação no fato de que ganham mais dinheiro com menos esforço, como alguns já me confessaram abertamente. Outra motivação repousa no fato de que alguns analistas não conseguem lidar com as transferências apaixonadas e exigentes de seus pacientes. Admite-se geralmente que os fenômenos da transferência são enfraquecidos nas situações de grupo, e estes ajudam, portanto, a reduzir a pressão das transferências. Jung demonstrou, contudo, que a transferência é o veículo do processo da individuação, trazendo consigo toda a transformação curativa do indivíduo.

O processo da individuação, baseado no veículo da transferência, é a conditio sine qua non do verdadeiro comportamento social, porque, se a individuação não for conscientemente realizada, “ela acontece espontaneamente de forma negativa, i.e., nós nos tornamos mais duros com relação aos nossos semelhantes”. Os relacionamentos humanos são condição indispensável para a realização consciente da unidade interior, porque, sem o reconhecimento consciente e a aceitação da nossa afinidade com aqueles que nos cercam, não pode haver uma síntese da personalidade.”Essa é a essência do fenômeno da transferência e é impossível afastá-la através de argumentos, porque o relacionamento com o Si-mesmo e ao mesmo tempo o relacionamento com nosso semelhante, e ninguém pode se relacionar com este último sem antes se relacionar consigo mesmo.”

FRANZ, Marie-Louise von. Psicoterapia.São Paulo: Paulus, 2021, pág. 346-350.

A Psicologia em grupo

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