Há muitas espécies de culpa

“— Moramos nas profundezas escuras da Terra — murmurou novamente o coro das muitas vozes — para ocultarmos do sol nossa aparência. Ali choramos constantemente nossa existência e lavamos com nossas lágrimas a prata indestrutível que extraímos da rocha, com que fabricamos a filigrana que o senhor viu. Só nos aventuramos à superfície nas noites mais escuras, e estas cavernas são a nossa saída. Montamos aqui em cima o que preparamos lá embaixo. E esta noite era suficientemente escura para nos poupar de nossa própria vista. Por isso, estamos aqui. Com nosso trabalho, tentamos compensar o mundo pela nossa feiura, e isso nos consola um pouco.

— Mas vocês não têm culpa de serem assim! — opinou Bastian.

— Ai, há muitas espécies de culpa — exclamaram os Aiai. — Por ações, por pensamentos… A nossa é por existirmos.”


ENDE
, Michael. A História sem fim.São Paulo: Martins Fontes, 2022, pág. 311-312.

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