Os sonhos banais

“O analista tem poucas esperanças de eliminar esses preconceitos através da argumentação. Essa tarefa é executada com muito mais eficácia — às vezes rapidamente, às vezes aos poucos — através dos sonhos do paciente. Mas é fundamental que o analista tenha ligação com o numinoso e tenha uma crença nele que se baseie na sua experiência pessoal; caso contrário, não nota nos sonhos o elemento que está voltado para a experiência numinosa, projetando neles, em vez disso, suas ideias pessoais a respeito do que o paciente “deveria” ser ou fazer.

(…) o analista precisa dizer repetidamente a si mesmo: “Não sei o que Deus quer dessa pessoa para que ele possa fazer e ajudar o paciente a ouvir melhor o que a própria psique está lhe sussurrando.”

(…) Nesse ponto, Jung, que estava supervisionando o caso, disse-me seriamente: “Como você tem tanta certeza de que essa mulher não tem de passar por esse episódio? Muitos pacientes melhoram depois de um episódio. Você não deveria estar tentando apreender o segredo do destino dela; é apenas um jogo de poder. Você não sabe o que Deus quer dela.” Assustada, simplesmente desisti e me restringi a calmamente interpretar os sonhos dela o mais diretamente possível. A analisanda inexplicavelmente melhorou. Quando contei o fato a Jung, ele riu e disse: “Era isso que eu esperava, mas não podia dizer nada porque senão você poderia ter tentado forçar alguma coisa de novo.” Aquilo me curou de vez por todas de qualquer entusiasmo terapêutico juvenil excessivo.

Aprendi nesses casos a não ocultar meus sentimentos, a não ocultar quão profundamente emocionada estou, e sim a expressá-lo. De acordo com a minha experiência, isso sempre teve um efeito positivo.

O próprio Jung sempre teve fortes reações emocionais aos sonhos. Reagia com risos, gritos de medo, mau humor ou exaltação aos sonhos que as pessoas levavam para ele, e frequentemente sua reação fazia o paciente compreender o que o sonho queria dizer.

Segundo minha experiência, uma das situações mais difíceis que existem é quando o inconsciente aparentemente só produz sonhos banais, nada que seja remotamente numinoso. Entretanto, frequentemente é possível perceber atrás do aspecto pessoal de um sonho a estrutura arquetípica básica. Jung tinha o dom particular de ser capaz de reconhecer o significado arquetípico mais profundo de um sonho que, a partir de um ponto de vista superficial, era simplesmente banal.

Os sonhos banais, ao contrário, mostram que um significado latente mais profundo está em ação por trás da realidade pessoal, frequentemente desconsiderada do dia a dia da pessoa. Repetidamente as pessoas se deixam dominar pela reação defensiva: “É simplesmente um sonho idiota e absurdo”. Jung sempre dizia que não existem sonhos idiotas, e sim pessoas idiotas que não os compreendem!”

FRANZ, Marie-Louise von. Psicoterapia.São Paulo: Paulus, 2021, pág. 221-224.

A dimensão religiosa da análise

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