Os Sonhos como Expressão do Inconsciente e Raiz da Neurose

O protestantismo, que derrubou alguns dos muros cuidadosamente erigidos pela Igreja, não tardou a sentir os efeitos destruidores e cismáticos da revelação individual. Quando caiu a barreira dogmática e o rito perdeu a autoridade de sua eficácia, o homem precisou confrontar uma experiência interior sem o amparo e o guia de um dogma e de um culto, que são a quintessência incomparável da experiência religiosa, tanto cristã como pagã.

O católico que volta as costas à sua Igreja, em geral, alimenta uma inclinação secreta ou manifesta para o ateísmo, ao passo que o protestante, quando possível, adere a um movimento sectário. O absolutismo da Igreja Católica parece exigir uma negação igualmente absoluta, enquanto que o relativismo protestante permite variantes.

Disse-lhe eu que seria  melhor tomar a sério sua obsessão do que afrontá-la como um disparate patológico.Mas tomá-la a sério significaria reconhecê-la como uma espécie de diagnóstico: o de que numa psique realmente existente ocorreria um transtorno sob a forma de um tumor canceroso. “Mas — perguntar-se-ão — em que consiste esse tumor?” Ao que eu respondo: “Não sei”, porque realmente não o sei. Embora — como já disse antes — se trate indubitavelmente de uma formação inconsciente compensatória ou complementar, nada se sabe ainda de sua natureza específica ou de seu conteúdo. É uma manifestação espontânea do inconsciente, em cuja base se acham conteúdos que não são encontrados na consciência.

Nesta altura meu paciente sente uma aguda curiosidade de saber como conseguirei detectar os conteúdos que constituem a raiz de sua ideia obsessiva. Então, com o risco de desconcertá-lo digo que seus sonhos nos fornecerão todas as informações necessárias. Teremos de considerá-los como se proviessem de uma fonte inteligente, como que pessoal, orientada para determinados fins. Isto, evidentemente, é uma hipótese ousada e ao mesmo tempo uma aventura, pois depositamos desta forma uma confiança extraordinária numa entidade em relação à qual se pode confiar muito, entidade cuja existência real começa a ser negada por não poucos psicólogos e filósofos contemporâneos.

(…)

O sintoma é como que o broto que surge na superfície da terra, mas a planta mesma se assemelha a um extenso rizoma subterrâneo (rhizoma). Este rizoma é o conteúdo da neurose, a terra matriz dos complexos, dos sintomas e dos sonhos. Temos boas razões, inclusive, para supor que os sonhos refletem com fidelidade os processos subterrâneos da psique. E se conseguirmos penetrar no rizoma, teremos alcançado, literalmente, a “raiz” da enfermidade.”

 

JUNG, C.G. Psicologia e Religião.Psicologia e Religião Ocidental e Oriental ,OC. Editora Vozes. 2012. Pág.37-39.

I. A Autonomia do insconsciente

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