“As copas das árvores mais próximas eram verdes, mas a folhagem das árvores afastadas parecia ter perdido a cor, era cinzenta. Um pouco mais adiante, tornava-se estranhamente transparente, nebulosa, ou melhor, parecia cada vez mais irreal. E para além dessas árvores não havia nada, absolutamente nada. Não era um lugar ermo, nem uma zona escura ou clara; era algo insuportável à vista e que dava às pessoas a sensação de terem ficado cegas. Pois não há olhos que suportem olhar o nada total.
(…)
Nessa noite, teve a segunda experiência que iria dar uma nova orientação à sua Grande Busca.
Sonhou durante a noite (e o sonho foi ainda mais nítido do que os anteriores) com o grande búfalo cor de púrpura que quisera abater. Desta vez, estava diante do animal sem arco nem flechas. Sentia-se minúsculo, e a cabeça do grande búfalo enchia todo o céu. Ouviu-o falar. Não conseguia entender tudo o que ele dizia, mas era mais ou menos isto:
“Se você me tivesse morto, seria agora um caçador. Mas você não o fez, por isto posso ajudá-lo, Atreiu. Escute! Há em Fantasia um ser que é mais velho do que todos os outros. Longe, muito longe, na direção do norte, fica o Pântano da Tristeza. No meio desse pântano, eleva-se a Montanha de Corno. É aí que mora a Velha Morla. Procure a Velha Morla!”
ENDE, Michael. A História sem fim.São Paulo: Martins Fontes, 2022, pág. 60-61.
