Runa

A palavra rola significa “mistério” ou “segredo”, em inglês antigo em línguas correlatas. Ela é certamente carregada de significados ocultos, e por uma boa razão. As ruas nunca foram apenas uma forma utilitária de escrita. Desde a sua mais antiga adaptação para o uso entre os germânicos, elas foram usadas para fins rituais e divinatórios.

Buckland, Raymond. Livro completo de bruxaria de Raymond Buckland: tradição, rituais, crenças, história e prática. Editora Pensamento Cultrix, São Paulo, 2019, p. 106.

O mistério último

O mito é a revelação de uma plenitude de silêncio no interior e em torno de todo o átomo de existência; é algo que dirige a mente o coração, por meio de figurações cuja forma vem do plano profundo, para aquele mistério último que preenche e cerca todas as existências. Mesmo no mais cômico e aparentemente frívolo de seus momentos, a mitologia dirije a mente para esse imanifesto, que se acha precisamente além do olho.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 263.

Jesus, o resumo do mito

Eis todo o mito num momento: Jesus, o guia, o caminho, a visão e o companheiro do retorno. Os discípulos são os iniciados, ainda não dominam o mistério, mas são introduzidos na experiência total do paradoxo dos dois mundos em um. Pedro foi tomado de estar o temor, que balbuciou. A carne dissolvera-se diante dos seus olhos para revelar a Palavra. Eles caíram sobre o seu rosto e, quando se ergueram, a porta tornara a se fechar.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 226.

O Todo além

(…) tanto o Pai como Filho são aniquilados – como personalidades-máscaras colocadas no inomeado. Pois assim como os produtos em reais de um sonho derivam da energia vital do sonhador, representando apenas fluidas divisões E complexidade de uma única força, assim também todas as formas de todos os mundos, quer terrestres ou divinos, refletem a forma universal de um único mistério inescrutável: a força que constrói o átomo e controla a órbita das estrelas.

Essa fonte de vida constitui o núcleo do endivido, e este a encontrará dentro de si mesmo – se puder retirar as camadas que a recobrem.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 178.

Primícias do mistério cósmico maior

O Cristianismo precisa transcender-se a si mesmo e se descobrir, não como uma outra doutrina eclesiástica partidária, mas como primícias do mistério cósmico maior que se deixará conhecer à esta geração.

A comunhão do Filho com o Pai e do Pai com o Filho simboliza a verdade de que os pequenos hábitos que comungamos diariamente enquanto família humana nos fazem habitar uns nos outros. A medida em que amamos e valorizamos os sentimentos que partilhamos, nos tornamos imortais uns para os outros, e neste sentido, a morte de um é a morte de todos, e a vida de um é a vida de todos.

Descobrimos nossa natureza eterna, habitamos o templo do interior uns dos outros. Descortinamos à consciência, que jazia na ignorância, um mais amplo sentido de comunhão e comunidade a um só tempo, no eterno que nos contém.

Raymond Buckland

Pai intruso

Mas veio o pai. Ele era o guia e iniciador para os/nos mistérios do desconhecido. Na qualidade de intruso original no paraíso da criança com a mãe, o pai é o inimigo arquetípico; eis porque, ao longo da vida, todos os inimigos simbolizam (para o inconsciente) o pai.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 150.

O mito da Criação do Genesis

Ele representa uma das formas básicas de simbolização do mistério da criação: a transmissão da eternidade ao tempo, a transformação  do um no dois e depois no muitos, assim como a geração da nova vida por meio da recombinação do dis.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 147.

O chamado

O chamado sempre descerra as cortinas de um mistério de transfiguração – um ritual, ou momento de passagem espiritual que, quando completo, equivale a uma morte seguida de um nascimento. O horizonte familiar da vida foi ultrapassado; os velhos conceitos, ideais e padrões emocionais, já não são adequados; está próximo o momento da passagem por um limiar.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 61.

Unidade

Os dois, o herói e o seu deus último, aquele que busca e aquele que é encontrado – são entendidos, por conseguinte, como a parte externa e interna de um único mistério auto-refletido, mistério idêntico ao do mundo manifesto. A grande façanha do herói supremo é alcançar o conhecimento dessa unidade na multiplicidade e, em seguida, torná-la conhecida.

O efeito da aventura bem-sucedida do herói é a abertura e a liberação do fluxo da vida no corpo do mundo.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 43.

Continuum da vida

A mente meditativa está unida, na representação de mistérios, não com o corpo cuja morte é apresentada, mas com o princípio da vida contínua que por algum tempo o habitou e que, durante esse tempo, foi a realidade revestida na aparência (a um só tempo, sofredor e causa secreta), o substrato em que o nosso eu se dissolve quando a “tragédia que desfigura a face do homem” despedaça, esmaga e dissolve nossa capa mortal.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 33.