Purificação da Alma

“(…) esta purificadora e amorosa notícia ou luz divina, quando vai preparando e dispondo a alma para a união perfeita de amor, age à maneira do fogo material sobre a madeira para transformá-la em si mesmo.”

CRUZ, São João da. A noite escura da Alma. Editora Família Católica, 2018, versão Kindle, Posição: 1628.

Angústias da vontade

“As aflições e angústias da vontade nesta noite são também imensas. Algumas vezes chegam mesmo a traspassar a alma com a súbita lembrança dos males em que se vê metida, e com a incerteza de seu remédio. Ajunta-se a isto a memória das prosperidades passadas; porque, ordinariamente, as almas que entram nesta noite, já tiveram muitas consolações de Deus e prestaram-lhe grandes serviços. Sentem, portanto, maior dor, vendo-se tão alheias àqueles favores, sem poder mais recuperá-los.

“Eu sou o verão que vejo minha miséria debaixo da vara da indignação do Senhor. Ameaçou-me e levou-me às trevas e não à luz. Não fez senão virar e revirar contra mim a sua mão o dia todo! Fez envelhecer a minha pele e a minha carne, e quebrantou os meus ossos. Edificou (uma cerca) ao redor de mim e cercou-me de fel e trabalho. Colocou-me nas trevas, como os que estão mortos para sempre. Cercou-me de um muro para que não possa sair; tornou pesados os meus grilhões. E ainda que eu clame e rogue, rejeita minha oração. Fechou-me o caminho com pedras de silharia; subverteu as minhas veredas. Pôs contra mim espreitadores; tornou-se para mim qual leão de emboscada. Subverteu meus passos, e quebrantou-me; pôs-me na desolação. Armou o seu arco e pôs-me como alvo à seta. Cravou-me nas entranhas as setas da sua aljava. Tornei-me o escárnio de todo o meu povo, objeto de riso e mofa todo o dia. Encheu-me de amargura, embriagou-me com absinto. Quebrou-me os dentes e alimentou-me de cinza. Da minha alma está desterrada a paz; já não sei o que é felicidade. E eu disse: frustrado e acabado está meu fim, minha pretensão e esperança no Senhor. Lembra-te de minha pobreza e de minha aflição, do absinto e do fel. Eu repassarei estas coisas no meu coração, e minha alma definhará dentro de mim” (Lam 3, 1-20).

É justo, pois, que tenhamos muita pena e compaixão desta alma; tanto mais que, em razão da soledade e desamparo causados por esta tenebrosa noite, se lhe acrescenta o sofrimento de não achar consolo ou arrimo em nenhuma doutrina, nem em diretor espiritual algum.

Como está tão embebida e imersa no sentimento dos males em que conhece com muita evidência suas próprias misérias, parece-lhe que os outros não veem o que ela vê e sente, e assim, por não a compreenderem, falam daquele modo. Daí brota novo sofrimento: imagina que não é aquele o remédio para o seu mal, e na verdade assim é. Até que o Senhor acabe, efetivamente, de purificá-la, do modo que Ele o quer, nenhum remédio ou meio serve nem aproveita para este seu penar. Tanto mais é verdade, quanto a alma menos pode agir neste estado. Está como prisioneira em obscura masmorra, atada de pés e mãos, sem poder mover-se, nem ver coisa alguma, longe de sentir qualquer favor do céu, ou da terra. Assim há de permanecer, até que se humilhe, abrande e purifique o espírito, tornando-se ele tão simples e fino, que possa fazer um com o espírito de Deus, segundo o grau de união de amor que Ele, na Sua misericórdia, quiser conceder-lhe.

Se há de ser, porém, verdadeira purificação, durará alguns anos, por forte que seja. Contudo, no meio deles, há alternativas de consolação, nas quais, por dispensação de Deus, esta contemplação obscura cessa de investir em forma e modo de purificação, para fazê-lo de modo iluminativo e amoroso. A alma, então, como saída daquelas prisões, é posta em recreação de desafogo e liberdade, gozando e sentindo mui suave paz, na intimidade amorosa de Deus, com facilidade e abundância de comunicação espiritual. Isto é indício da saúde que a alma vai cobrando nesta purificação; bem como prenúncio da fartura que espera. Às vezes chega a ser tão grande a consolação, que lhe parece estarem terminadas as suas provações.

E assim a alma, aqui nesta purificação, vê que quer bem a Deus, e daria mil vidas por Ele (o que é bem verdade, porque no meio destes trabalhos as almas amam a Deus com todas as suas forças); contudo, não sente alívio algum, e sim ainda mais sofrimento. Pois, amando-O tanto, e não pondo em outra coisa a sua solicitude senão em Deus, vê-se ao mesmo tempo tão miserável, que não se pode persuadir do amor de Deus por ela, nem de motivo algum, presente ou futuro, para ser d’Ele amada.”

CRUZ, São João da. A noite escura da Alma. Editora Família Católica, 2018, versão Kindle, Posição: 1347-1432.

Primeira canção e sua declaração

“(…) em acabando de aniquilar e sossegar as potências, paixões e apetites, nos quais sentia e gozava tão baixamente de Deus, passei do trato e operação humana que me eram próprios, à operação e trato divino. A saber: meu entendimento saiu de si, mudando-se, de humano e natural, em divino. Unindo-se a Deus nesta purificação, já não compreende pelo seu vigor e luz natural, mas pela divina Sabedoria à qual se uniu. Minha vontade saiu também de si, tornando-se divina; unida agora com o divino amor, já não ama baixamente com sua força natural, e sim com a força e pureza do Espírito Santo, não mais agindo de modo humano nas coisas de Deus.”

CRUZ, São João da. A noite escura da Alma. Editora Família Católica, 2018, versão Kindle, Posição: 1205.

Segundo livro

“Estes espirituais vão, pois, por certo tempo, nutrindo os sentidos com suaves comunicações. Atraída e deliciada com o gosto espiritual que dimana da parte superior, a parte sensitiva une-se e põe-se em harmonia com o espírito. Alimentam-se, sentido e espírito juntos, cada um a seu modo, do mesmo manjar espiritual e no mesmo prato que nutre a ambos como a uma só pessoa. E assim, de certo modo irmanados e conformes em unidade, estão dispostos agora para, juntos, sofrer a áspera e dura purificação do espírito, que os espera.

De fato, a verdadeira purificação do sentido só se realiza quando começa deliberadamente a do espírito. Por isto, a noite do sentido que descrevemos, mais propriamente se pode e deve chamar certa reforma e enfreamento do apetite, do que purificação.”

CRUZ, São João da. A noite escura da Alma. Editora Família Católica, 2018, versão Kindle, Posição: 1157-1163.

Explicação desta noite escura

Nesta noite que chamamos contemplação, os espirituais passam por duas espécies de trevas ou purificações, conforme as duas partes da natureza humana, a saber: a sensitiva e a espiritual.

“Assim, a primeira noite, ou purificação, é a sensitiva, na qual a alma se purifica segundo o sentido, submetendo-o ao espírito. A segunda noite, ou purificação, é a espiritual, em que se purifica e despoja a alma segundo o espírito, acomodando-o e dispondo-o para a união de amor com Deus.

Já percorreram, durante algum tempo, o caminho da virtude, perseverando em meditação e oração; pelo sabor e gosto que aí achavam, aos poucos se foram desapegando das coisas do mundo e adquiriram algumas forças espirituais em Deus. Deste modo, conseguiram refrear algum tanto os apetites naturais, e estão dispostos a sofrer por Deus um pouco de trabalho e secura sem volver atrás, para o tempo mais feliz. Estando, pois, estes principiantes no meio das melhores consolações em seus exercícios espirituais, e quando lhes parece que o sol dos diversos favores os ilumina mais brilhantemente, Deus lhes obscurece toda esta luz interior. Fecha-lhes a porta, vedando-lhes a fonte viva da doce água espiritual que andavam bebendo n’Ele todas as vezes e todo o tempo que desejavam; pois, como eram fracos e pequeninos, não havia para eles porta cerrada,

Eis que de repente os mergulha Nosso Senhor em tanta escuridão que ficam sem saber por onde andar, nem como agir pelo sentido, com a imaginação e o discurso. Não podem mais dar um passo na meditação, como faziam até agora. Submergido o sentido interior nesta noite, deixa-os Deus em tal aridez que, não somente lhes é tirado todo o gosto e sabor nas coisas espirituais, bem como nos exercícios piedosos dantes tão deleitosos, mas, em vez de tudo isto, só encontram amargura e desgosto.

Vendo-os Deus um pouquinho mais crescidos, quer que se fortaleçam e saiam das faixas da infância – tira-lhes, portanto, o doce peito e os desce dos divinos braços, ensinando-os a andar com seus próprios pés. Em tudo isto sentem grande novidade totalmente contrária ao que estavam acostumados.”

CRUZ, São João da. A noite escura da Alma. Editora Família Católica, 2018, versão Kindle, Posição: 593-620.

Um estado da alma

“O purgatório pode considerar-se ou como um estado da alma que é purificada, ou como um lugar e sítio destinado a estas purificações das almas.”

Santa Catarina de Gênova. Tratado do Purgatório, Ed. Santa Cruz, 2019, Local: 703.

Capítulo II – Catecismo sobre o Purgatório

Dois modos de considerar o purgatório

Alma alheia

“A alma perde toda atenção de si mesma ou de suas companheiras de purificação, absorta no amor de Deus e, alheia a todo valor de tempo ou espaço, vive abandonada às operações divinas que a vão purificando.”

Santa Catarina de Gênova. Tratado do Purgatório, Ed. Santa Cruz, 2019, Local: 682.

S´íntese da Doutrina de Santa Catarina

A alma purificada permanece em Deus

“O ouro, quando é purificado até os vinte quatro quilates, já depois não se consome mais, por muito fogo que lhe apliquem, pois não pode consumir-se senão a imperfeição desse ouro. Assim é, pois, como age na alma o fogo divino. Deus lhe aplica tanto fogo, que consome nela toda imperfeição e a conduz à perfeição de vinte quatro quilates — cada um em seu grau de perfeição. E quando a alma está purificada, permanece toda em Deus, sem nada próprio em si mesma, já que a purificação da alma consiste precisamente na privação de nós em nós. Nosso ser está já em Deus.”

Santa Catarina de Gênova. Tratado do Purgatório, Ed. Santa Cruz, 2019, Local: 493.

Capítulo I – Tratado do Purgatório

Amor divino que purifica e aniquila

Intelectualidade e Sabedoria

“A intelectualidade é um atributo do poder da razão, e a sabedoria é uma qualidade libertadora da alma. Quando a razão é purificada por meio de um tranquilo discernimento, ela se transforma em sabedoria.”

YOGANANDA, Paramahansa. A Segunda Vinda de Cristo, A Ressurreição do Cristo Interior. Comentário Revelador dos Ensinamentos Originais de Jesus. Vol. I. Editora Self, 2017, pág. 488.

Capítulo 26: As Beatitudes. O Sermão da Montanha, Parte I.

Tornar-se Puro de Coração

A suprema experiência religiosa é a percepção direta de Deus, para a qual é necessário tornar puro o coração.”

Bhagavad Gita 

O iogue que, de maneira completa, tranquilizou a mente e controlou as paixões, livrando-as de toda a impureza, e que se unificou com o Espírito, ele verdadeiramente alcançou a suprema beatitude.

Com a alma unida ao Espírito com a yoga, tendo uma visão de igualdade para com todas as coisas, o iogue contempla seu Eu (unido ao Espírito) em todas as criaturas, e todas as criaturas no Espírito.

Aquele que Me percebe em toda parte e contempla todas as coisas em Mim nunca Me perde de vista, nem Eu jamais o perco de vista.

YOGANANDA, Paramahansa. A Segunda Vinda de Cristo, A Ressurreição do Cristo Interior. Comentário Revelador dos Ensinamentos Originais de Jesus. Vol. I. Editora Self, 2017, pág. 486.

Capítulo 26: As Beatitudes. O Sermão da Montanha, Parte I.