A Morte

Diferentes denominações: la Morte, la Mort.

Outras posições ocupadas no tarô: sempre número XIII, seja qual for o tarô.

Etimologia e significados do termo morte: do latim mors, mortis. Por significar “a Grande Ceifadeira”. não apresenta um sentido etimológico especial, mas se pode dizer que os primeiros autores que escreveram sobre o tarô não hesitaram em nomeá-la. Por isso, na seção “significados divinatórios”, exposta abaixo, ela é denominada “Morte”. Os autores contemporâneos, diferentemente, designam-na com a expressão “arcano XIII”.

Sobre a Morte

No século XIII, cinco poemas evocam uma conversa entre três mortos e três vivos. Citam três jovens senhores, mais tarde três reis, que se encaminham a um cemitério. De repente, três mortos aparecem. Os cadáveres iniciam uma conversa moralizadora e didática com os vivos, cujo tema se resume ao seguinte: “Outrora fomos homens como vós; logo sereis como nós agora”. Já na Antiguidade romana havia textos que convidavam o leitor a considerar a frágil brevidade da vida.

Assim, em Satíricon, de Petrônio, é possível ler: “Ó miséria! Ó piedade! O homem nada é! Quão frágil é a trama de sua existência! Tal será junto a Plutão vosso estado e o meu: vivamos, pois, enquanto a idade nos convida a aproveitar…” No Ocidente cristão, essa admoestação se expande de modo considerável na literatura e na iconografia, exortando quem medita não a aproveitar a vida, mas a se preparar para o seu fim não apenas inelutável, mas também pronto a se abater sobre ele a qualquer momenento. As ilustrações da narrativa acima, a “Lenda dos três mortos e dos três vivos”, multiplicam-se: inicialmente, os três mortos são representados como homens magros, de depois como esqueletos completamente descarnados, “ossos secos”, de acordo com a descrição do livro de Ezequiel (XXXVII, 4). Vários autores, a maioria desconhecida, compuseram poemas francês, espanhol etc.), chamados de “danças da morte” ou “danças macabras”, nas quais um morto, ou a morte, convida os vivos de todas as classes sociais (até mesmo reis e papas) a irem com ele ou ela para participar de sua dança e a acompanharem no além. Em pouco tempo, é o esqueleto, e não mais um cadáver em particular, a aparecer para representa a ideia abstrata de Morte: ele personifica a Morte, menos como uma simples alegoria do que como um agente sobrenatural que substituiu os anjos, santos ou demônios para executar as ordens de Deus. Ele não tarda a triunfar, esmagando suas vítimas sem que elas percebam. Esse triunfo da Morte é extraordinário nas obras de arte a partir do final do século XIV e talvez tenha inspirado os autores do tarô. Para compreender o efeito impressionante dessa Morte triunfal, o leitor pode digitar em um site de busca a expressão “triunfo da Morte” e deixar-se surpreender por uma enorme quantidade de obras antigas assustadoras, repletas de esqueletos que chegam para recolher cadáveres. Isso porque a grande peste negra dos anos 1340, que matou mais de um quarto da população do Ocidente cristão, ainda está presente com sua marca traumática e seu caráter endêmico. O Triunfo da Morte, de Pieter Bruegel, o Velho, é um quadro particularmente impressionante, repleto de esqueletos que tentam levar o maior número de vivos à morte, de todas as maneiras possíveis.

De forma mais leve, por assim dizer, o triunfo do esqueleto psicopompo (ou seja, que acompanha as almas até o além) pode ser explicado pelo sucesso crescente do estudo da anatomia no Renascimento: os artistas aproveitaram para ilustrar os mortos com a máxima autenticidade possível, constituindo um movimento realista que atingiria seu apogeu com Les Écorchés [Os Estolados] de Fragonard. Assim, a representação da Morte por meio de um esqueleto é relativamente recente. Na Antiguidade, eram Hermes, Anúbis ou Mercúrio que acompanhavam os defuntos no além. Isso mostra que alguns taros “egípcios” puderam resvalar no anacronismo ridículo ao evocarem uma ceifadeira esquelética, cercada de hieróglifos, escrita de uma civilização que praticava a mumificação e cujas almas eram escoltadas pelo deus com cabeça de chacal. Na era cristã, cabia aos santos, aos anjos da guarda ou aos demônios enfrentarem-se ao redor da alma do moribundo no momento da passagem para o além; vencia o mais forte. Quanto aos cadáveres, por um bom tempo eles foram representados como figuras adormecidas, como as famosas estátuas de defuntos que ainda hoje podem ser admiradas nas igrejas medievais.

A foice é um instrumento agrícola, cujo uso remonta a tempos imemoriais. Em contrapartida, sua associação com o esqueleto também é recente. Nas imagens antigas, inicialemente o esqueleto é provido de muitas ferramentas diferentes: enxada, tesoura, lâmina, gaita, espada. Com frequência, o instrumento caracteriza a profissão da pessoa que a Morte quer levar consigo. Em seguida, a foice aparece com o esqueleto, em especial na obra de Petrarca, e esse poderoso instrumento, que tem uma pesada carga simbólica, reforça ainda mais o alcance dessa alegoria da morte. Com efeito, a foice provém originariamente da Biblia. Já no Antigo Testamento o profeta Joel atribui a Deus Pai uma foice ou foicinha, com a qual ele ceifará os pagãos (IV, 11-13). Mateus (XIII, 39) atribui a foice aos anjos, ceifadores das ervas daninhas que são os filhos do Maligno. No Apocalipse (XIV, 14-16), o filho do homem aparece sentado em uma nuvem, com uma foice afiada na mão. A mitologia grega não fica atrás ao evocar Cronos (equivalente de Saturno), figura alegórica do Tempo que devora seus filhos e ceifa tudo que se apresenta à sua frente. Entre os poetas latinos, o atributo da foice valeu a Saturno a denominação de Falciger: “aquele que carrega a foice”.

A essa pesada carga simbólica acrescenta-se o número 13, outrora considerado tão maléfico que, segundo a superstição, quando havia 13 pessoas à mesa, uma delas morreria ao longo do ano. Provavelmente essa consideração se baseava no fato de que os participantes da Santa Ceia eram 13.

As imagens do tarô refletem simplesmente as tradições que acabamos de evocar: não se vê nenhum acréscimo posterior nas cartas. Mas o que mais haveria de ser acrescentado a tal imagem? De resto, os primeiros autores do tarô tiveram certa dificuldade para lhe dar um sentido um pouco mais positivo. Em todo caso, talvez a ideia de transformação não fizesse parte do imaginário do século XV no que se refere a essa representação: “Preparai-vos para o inelutável que se abaterá brutalmente sobre vós” – é bem provável que essa tenha sido a primeira idea por ela transmitida.

Significado

1781, conde de Mellet

“A Morte ou o Thet indica a ação de varrer: com efeito, a Morte é uma varredora terrível.”

1783, Alliette: nº 17, a Morte

“Vale notar que a vinda da morte é necessária; porém, não se deve fazer confusão. Significa a morte, ou quase, na lâmina seguinte, o que na maioria das vezes representa um desconhecido, um projeto, um processo ou apenas uma visitinha de cortesia, o que nesse caso é ainda melhor.”

1909, Papus: 13, a Morte

Sentido espiritual: a imortalidade pela mudança. Sentido moral ou alquímico: a morte e o renascimento. Sentido físico (que também pode ser utilizado para a adivinhação): a transmutação das forças. Sentido divinatório: morte.

1927, Oswald Wirth: XIII, a Morte

Fatalidade inelutável, fim necessário, desencantamento, influência ativa de Saturno.

PARA O BEM. Aprofundamento, penetração intelectual, metafisica, desilusão, discernimento severo, sabedoria desiludida, indiferença, resignação.

PARA O MAL: Prazo fatal; fracasso inevitável, não provocado pela vítima. Desanimo, pessimismo, conversão absoluta, suspensão com o intuito de recomeçar em modo diametral mente oposto.

1949, Paul Marteau: lâmina XIII, a Morte

SENTIDO ELEMENTAR. As mudanças de estados de consciência do homem que acom panham a passagem de um ciclo concluído no ingresso em outro ciclo de natureza diferente.

SENTIDO CONCRETO. Essa lâmina não é designada pelo nome, uma vez que sua imagem representa a morte de modo clássico. Como esta não existe, não pode ser nomeada. Seu verdadeiro sentido é a transmutação.

MENTAL (a inteligência). Renovação das ideias, totalmente ou em parte, pois algo inter virá e transformará tudo, como um fenômeno de catálise, em que um corpo novo modifica por completo a ação dos corpos presentes.

ANÍMICO (as paixões emotivas). Distanciamento; dispersão na afeição; extirpação de um sentimento, de uma esperança.

FÍSICO (o lado utilitário da vida). A morte, a pausa de alguma coisa, a imobilidade. Nos negócios, transformação completa.

INVERTIDA. Estagnação do ponto de vista da saúde; a morte pode ser evitada, mas a doença é incurável. Dependendo do que a circunda, significa morte, cujos efeitos continuam além dela, nas ações ruins.

NADOLNY, Isabelle. História do TarôUm estudo completo sobre suas origens, iconografia e simbolismo. Ed. Pensamento, 2022, pág. 239-242.

A Força

Sobre a Força

O sentido do termo “força” variou pouco ao longo de sua etimologia e é inequívoco. Incorpora outra virtude cardeal, que confere poder sobre si mesmo, sobre o mundo e os outros e que muitas vezes é associado ao vigor físico. Nas cartas de tarô, as alegorias da Força são representadas por uma mulher que ora destrói uma coluna, ora domina um leão. Em ambos os casos, ela faz referência aos heróis míticos mais fortes que existem. No Antigo Testamento, é Sansão quem vence o leão ou destrói as colunas do templo dos filisteus. Na mitologia greco-romana, Hércules vence o leão de Nemeia com as mãos nuas, e é ele que encontramos excepcionalmente no Tarô de Visconti. As representações de figuras humanas que seguram com as duas mãos a boca de um grande leão são antigas: no local onde se situava Troia, foi encontrado um fragmento de cerâmica do século VII a.C. com a representação de uma cena semelhante. Na Idade Média também há registros dessa figura de Sansão abrindo a boca de um leão, por exemplo em uma peça tirolesa de bronze do século XII, na qual ele aparece agachado sobre o animal e com a inscrição “Os braços de Sansão domaram a boca do leão”. Posteriormente, uma figura feminina alegórica foi representada na mesma posição com a fera.

Uma das raras alusões Saint Louis [Compêndio do Rei São Luís] descreve essa figura: “Esta deve pé, segurando um leão… O nome da mulher é Força”. Por que um ser uma mulher em leão? Porque para as pessoas da Idade Média esse era o animal mais forte e mais poderoso da Criação; nenhuma outra fera poderia substituí-lo. Quem consegue vencer o leão é capaz de vencer as maiores forças da natureza. Alguns autores quiseram ver no animal representado as cartas do tarô um grande cão, mas a imagem é inequívoca: todas as representações antigas da força exibem um leão. Por extensão, algumas obras de arte do final da idade Média que representam mulheres e leões ou às vezes mulheres com uma coluna são alegorias da Castidade: permanecer casto siginifica vencer mais uma vez as grandes forças da natureza ou, em outros termos permanecer senhor da nossa própria natureza. Além de dominar a própria força, vencer o leão significa apropriar-se dela.

Como o diz Jesus no Evangelho apócrifo de São Tomé: “Bem-aventurado o leão que se torna homem quando consumido pelo homem; maldito o homem que o leão consome, e o leão torna-se homem”.

Significado da Força

1909, Papus: 11, a Força

Sentido espiritual: a força divina. Sentido moral ou alquímico: a força moral. Sentido fisico (que também pode ser utilizado para a adivinhação): a força humana. Sentido divinatório: força.

1927, Oswald Wirth: XI, a Força

Virtude, coragem, força anímica, influência de Júpiter e Marte.

PARA O BEM. Energia moral, calma, intrepidez, mente que domina a matéria. Inteligência que doma a brutalidade. Sujeição das paixões. Exito industrial.

PARA O MAL Cólera, impaciência, ardor desmedido, insensibilidade, crueza, luta, guerra, conquista violenta, operação cirúrgica, veemência, discórdia, incêndio.

1949, Paul Marteau: lâmina XI, a Força

SENTIDO ELEMENTAR. Entre os poderes do homem, a Força representa o que é fruto de seus esforços e que ele pode exercer plenamente em todos os planos quando o coloca em harmonía com as leis divinas.

SENTIDO CONCRETO. Poder pessoal sobre a matéria.

MENTAL (a inteligência). Confere um grande poder para separar o verdadeiro do falso, o útil do inútil, e uma clareza precisa no julgamento.

ANÍMICO (as paixões emotivas). Dominação das paixões, poder de conquista. Proteção afetuosa.

FÍSICO (o lado utilitário da vida). Vontade de vencer os acontecimentos e domínio da situação quando se está do lado certo. Poder de comando em toda questão material.

INVERTIDA. O homem já não é mestre de sua força; ele é brutal, desordenado ou então se deixa levar e não a utiliza. Os acontecimentos ou as pessoas o abaterão, sua força será aniquilada, e ele será vítima de forças superiores.

NADOLNY, Isabelle. História do TarôUm estudo completo sobre suas origens, iconografia e simbolismo. Ed. Pensamento, 2022, pág. 233-235.

A Roda da Fortuna

(…) roue vem do latim rota. Fortune vem de fortuna, termo latino que significa “destino, acaso, sorte ou má sorte” (…) a potência.

Sobre a Roda da Fortuna

Na Idade Média, a roda cíclica do destino é associada a uma figura de mulher que a move, e o resultado é este conjunto iconográfico específico: a roda da fortuna.

Na Antiguidade grega, o filósofo Anacreonte (cerca de 550 – cerca de 470 a.C.) escreveu: “A vida humana gira de maneira instável como os raios da roda de um carro”. (…) sendo que tanto a roda do carro quanto a roda de fiar representam símbolos evidentes do caráter cíclico da vida. A Fortuna, por sua vez (…) foi recuperada como figura alegórica da contingência, do acaso e do jogo pelo Ocidente cristão (…) a fortuna não se opõe à Providência divina, mas dela é dissociada. A roda por ela acionada é simplesmente o tempo da história profana, da ascen- são e da queda dos poderes laicos, o tempo circular e vazio de sentido. Os escolhidos, uma mistura de cães, macacos e coelhos, são alegorias da estupidez humana, que se vê como dona do destino ao alcançar o topo de alguma coisa, mas que não percebe que é apenas o joguete inconsciente de uma roda sobre a qual não tem nenhum domínio.

Para os autores antigos, não havia dúvida de que essa carta oferecia, antes, uma ocasião para refletir sobre o infortúnio humano.

Significados

(…) a ordem.

Sagacidade, presença de espírito que não deixa escapar as boas ocasiões iniciativa bem-sucedida, adivinhação de ordem prática, sorte; sucesso fortuito, como ganhar na loteria.

Descuido, especulação, abandono ao acaso.

O homem nas ações do presente, que têm sua origem nas obras periódicas do passado e preparam as do futuro, às quais o Divino dará uma conclusão bené- fica, sejam quais forem suas vicissitudes.

Ciclo cujo retorno à origem leva consigo a experiência adquirida, lógica.

Sejam quais forem os acontecimentos que se apresentam à vida do consulente, eles não são estáveis, orientam-se para uma evolução, uma mudança necessariamente feliz, pois a carta não é retrógrada.

NADOLNY, Isabelle. História do TarôUm estudo completo sobre suas origens, iconografia e simbolismo. Ed. Pensamento, 2022, pág. 230-232.

O Eremita

(…)le Capucin.

(…) eremita, por sua vez oriundo do grego erêmitês, que significa “do deserto” “que vive na solidão” e deriva de erêmos, “deserto”.

Sobre o Eremita

(…) com o significado a ele refere retira em uma solidão voluntária. (…) il Gobbo (o corcunda, depois recebeu o nome de il Vecchio (O Velho), Tempo. (…) aos efeitos devastadores do tempo sobre o homem (…) os primeiros tarô aros italianos exibem um homem idoso com uma ampulheta(…) Saturno. Em resumo, essa figura mostra nos quanto as consequências de sua obra e, nos dois us filhos seus ampulheta, algumas vezes munido de muletas ou de um cajado com a ampul marcha.

De resto, o Dictionnaire universel [Dicionário Universal] de Furetière (1690) define o eremita como um “homem devoto, que se retirou na solidão para melhor se dedicar à contemplação e se desvencilhar das questões mundanas”. Portanto, depois do homem vítima do tempo, vemos o homem sábio que se retira do mundo, sempre idoso e com um cajado, mas carregando um lampião. Esse lampião e esse eremita poderiam muito bem ser uma alusão a Diógenes de Sinope, filósofo grego do século IV a. C., que escandalizava por seu modo de vida marcado pela indigência. Dizem que ele percorria as cidades com seu lampião, clamando “Procuro um homem!”, e subentendia um homem digno desse nome. Na arte, ele costum ser representado com um lampião, um cajado e um cão: atributos significativos da errância, também encontrados com o Louco no tarô.

(…) essa carta arta poderia representar qualquer figura de homem religioso solitário peregrinação ão, uma vez que o o cajado costuma ser o atributo dos peregrinos.

Nota-se que a barba é um sinal flagrante de eremitismo. A vida dos padres do deserto, que se retiravam no Monte Atos, um dos primeiros lugares cristãos consagrados ao retiro, implicava uma regra que proibia o acesso ao monte a “todo animal fêmea, a toda mulher, a todo eunuco e a todo rosto liso”. Desse modo, deixar crescer a barba e os cabelos marcava o abandono do corpo e a ruptura com o mundo profano.

Significados

(..) o Sábio ou o Homem que busca a Verdade e a Justiça “O nº IX representa um filósofo venerável em longo manto e com um capuz nos ombros: ele caminha encurvado sobre seu cajado e segura um lampião com a mão esquerda. É o sábio que busca a justiça e a virtude. Portanto, de acordo com essa pintura egipcia, imagi- nou-se a história de Diógenes que, com o lampião na mão, procura um homem em plena luz do meio-dia. (…) pois os filósofos gostam de viver retirados e não se adaptam à frivolidade do século.

(…) os gênios protetores, a iniciação.

Isolamento, concentração, silêncio, aprofundamento, meditação, estudo. Ocultista que cala sobre seus segredos.

O homem em busca da verdade na calma e na paciência.

Retiro em si mesmo para examinar o resultado das atividades sancionadas pela Justiça.

Luz que ajuda a iluminar e resolver um problema qualquer.

Também significa prudência, não com a ideia de temor, mas para cons truir algo melhor.

NADOLNY, Isabelle. História do TarôUm estudo completo sobre suas origens, iconografia e simbolismo. Ed. Pensamento, 2022, pág. 227-229.

A Justiça

Para o Padre da Igreja Gregório, o Grande (cerca de 540-604) (…) as quatro virtudes cardeais – prudência, justiça, força e temperança – constituem os fundamentos sólidos do edificio espiritual. Santo Tomás de Aquino retoma a fórmula de São Gregório e explica que as virtudes cardeais são, ao mesmo tempo, o eixo e a base a partir dos quais se articula a existência humana: “Eis por que chamamos apropriadamente de cardeais as virtudes em torno das quais, de certo modo, gira a vida moral e nas quais ela se funda”. De fato, essas quatro virtudes já haviam sido elencadas na República de Platão. Posteriormente, os Padres da Igreja as integraram ao dogma e às representações cristãs e a elas acrescentaram três virtudes teologais: a fé, a esperança e a caridade.

(…) se por um lado as representações das virtudes e dos vícios, feitas por Giotto (1303-1305) na capela Scrovegni em Pádua, permaneceram célebres.

Em sua representação tanto na arte quanto no tarô, a Justiça herdou atributos da divindade grega Têmis: o gládio e a balança que, segundo Aristóteles, são as duas maneiras de considerar a justiça. O gládio representa sua força distributiva, e a balança, sua missão equilibrante. (…) a figura do arcanjo São Miguel, anjo que conduz a alma dos mortos e é encarregado de pesá-las antes de recompensá-las ou puni-las de acordo com seus atos.

Significado

Sentido espiritual: equilíbrio universal, repartição, justiça.

Ordem, regularidade, método, equilíbrio, influência plácida da Lua.

Estabilidade, conservadorismo, organização, funcionamento normal.

O julgamento imposto ao homem por sua consciência profunda para apreciar o equilíbrio e o desequilíbrio criados por seus atos, com suas consequências felizes ou infelizes.

Clareza de julgamento, saber encontrar o ponto de equilíbrio, Insensibilidade.

Essa lâmina é um principio de rigor.

NADOLNY, Isabelle. História do TarôUm estudo completo sobre suas origens, iconografia e simbolismo. Ed. Pensamento, 2022, pág. 224-226.

O Carro

(…) surgido em francês em 1268; cheriot, de charrier [carre gar, transportar], que vem de char [carro], do latim carrus, cujo sentido inicial é “veículo de quatro rodas”. A definição do termo chariot é a de um veículo de quatro rodas utilizado para o transporte de cargas.

Sobre o Carro

Certo é que o uso da imagem do herói triunfante, em pé em um carro, é tão antigo a quanto os carros de guerra – quer se trate de Osíris, quer de Marte ou de qua qualquer vencedor. Sêneca já fazia alus alusão outro a ele: “Quando o vencedor se erguia em seu magnífico carro”. (…) vitorioso César desfilando por Roma. Na época em que o tarô surgiu, era de um ver Marte representado dessa comun na arte sa forma.

(…) segundo a famosa lenda da Idade Média, conhecida como a alegoria do orgu- Tho: “Quando Alexandre, o Grande, em sua viagem triunfal pelo Oriente, chegou ao fim da terra, quis ter certeza de que ali o céu e a terra se tocavam de fato. Para tanto, mandou prender em fios dois pássaros enormes da região, egião, atrelou-os atre a um jugo e amar amarrou-os a um cesto. Alexandre subiu no cesto segurando uma a lança, na ponta da qual estava preso um pedaço de carne de cavalo. Estendeu-a no isca como na frente da cabeça dos grifos, que ue abriram suas asas e alçaram voo rumo ao céu. Na metade mo do caminho, eis que surgiu um u homem- -pássaro. Com terríveis ameaças, ele co o. Embora a conjurou o Rei a renunciar a seu projeto. contragosto, Alexandre abaixou sua la lança. Os grifos mudaram seu percurso planando sobre a terra”,

(…) a armadura, que pode parecer curiosa com suas ombreiras decoradas com dois rostos. Quanto ao escudo, nos tarôs ele costuma trazer o nome do gravador do jogo. Alguns autores veem nesse carro uma alegoria da alma, tal como descrita por Platão: um carro puxado por dois cavalos e dirigido por um condutor, sendo que os cavalos representam os desejos antagônicos do homem e o condutor personifica a razão. 197 Mas com isso já estaríamos entrando no no campo das interpretações.

Significado

Sentido espiritual espirito e forma, vitória e o triunfo, propriedade.

Sucesso legítimo, avanço merecido, talento, capacidades, aptidões postas em prática.

Ambições înjustificadas.

A perigosa travessia do homem na matéria para alcançar a espiritualidade mediante o exercício de seus poderes e do controle de suas paixões.

As correntes materiais.

Realização, mas sem gestação nem inspiração; em outros termos, uma formatação.

Grande atividade, rapidez nas ações.

Também significa uma novidade, uma conquista. Propaganda pela palavra.

NADOLNY, Isabelle. História do TarôUm estudo completo sobre suas origens, iconografia e simbolismo. Ed. Pensamento, 2022, pág. 221-223.

O Enamorado

Desde a época romana, vê-se em vasos e afrescos a ilustração de um casal de apaixonados. Nos primeiros tarôs ita- lianos, trata-se simplesmente da representação de um casal que se une sob a proteção bene- volente de Cupido.

(…) ainda com o Cupido no alto da carta, parece indeciso entre duas mulheres. (…) “Ao atingir a puberdade, idade concebida pela natureza para que o indivíduo possa escolher o rumo que deseja tomar (portanto, essa história se refere a um rapaz, como vemos na carta), Hércules reti- rou-se na solidão. Sentado, viu à sua frente dois caminhos, o da volúpia e o da virtude, e refletiu longamente sobre qual deles deveria percorrer. […] Eis que de repente a ele se unem, à esquerda e à direita, caídas dos ares e mais altas do que os mortais, a Virtude e sua ini- miga, a Volúpia. O vício e a virtude se aproximam dele e o puxam pelas vestes, tentando atraí-lo, cada um de seu lado”.

Nessas histórias, o mau caminho que leva à perdição é o da esquerda, e o bom caminho, o da direita. Nos tratados de iconografia, a Virtude costuma ser represen- tada com uma coroa de louros e cara de poucos amigos. Já o Vício tende a adotar o aspecto de uma donzela encantadora e com uma coroa de flores, para melhor enganar o incauto.

Significado

(…) a liberdade.

Sentimento, livre-arbitrio, provação, dupla influência de Vênus ou, mais exatamente, de Ishtar, estrela guerreira da manhã.

Determinismo voluntário, escolha, votos, dúvida, irresolução.

Representa a motivação do desejo, que incita o homem a se unir com o universal, na harmonia ou no desequilíbrio, conforme ele se sacrifique por ele ou queira absorvê-lo em benefício próprio.

A intervenção da polaridade sexual do ser humano em toda ati- vidade que ele é convocado a manifestar, sua ação no discernimento que ele é obrigado a efetuar para conduzir sua vida.

Carta de união, de matrimônio ou uma escolha a ser feita.

NADOLNY, Isabelle. História do TarôUm estudo completo sobre suas origens, iconografia e simbolismo. Ed. Pensamento, 2022, pág. 218-220.

O Papa

(…) vem do latim papa e designa sem equívoco possível o chefe da Igreja Católica Romana.

Sobre o Papa

Após o Imperador, figura do poder temporal absoluto, surge o Papa, figura do poder espiritual absoluto, pelo menos para os europeus do fim da Idade Média. (…) usa a tiara dupla ou tripla, (…) marca de sua autoridade ao mesmo tempo temporal e espiritual (a tiara tripla designaria os três poderes: pontifício, imperial e régio).

Sobretudo a barba é um elemento importante. Desde Clemente XI (portanto, a partir de 1700), todos os papas são barbeados. Entre Clemente VII (1523-1534) e Inocêncio XII (morto em 1700), todos os papas têm barba, ao passo que antes, entre 1362 e 1503, eles ainda eram barbeados, exceto Clemente VII de Avignon (1387-1394). Esses detalhes poderiam permitir situar a iconografia do nosso papa do tarô: um papa do século XVI ou do XVII.

(…) a barba é uma representação simbólica de poder e maturidade, bem como sinal de virtude e sabedoria, de resto encontrado nas representações de Deus Pai e, posteriormente, de Cristo, que às vezes também eram representados com uma tiara papal. O Papa do tarô dá a bênção latina com o indicador e o dedo médio, e os outros dedos ficam dobrados. Essa bênção, também chamada de urbi et orbi, é reservada ao sumo pontífice, pois exprime uma universalidade e se dirige aos cristãos de Roma (nesse caso, urbs, urbis, “cidade”, designa Roma, a cidade por excelência, capital do mundo) e do mundo (orbs, orbis, “círculo”, designa o mundo, em referência à forma circular da Terra).

No que se refere ao tarô, a figura do Papa, constrangedora nos países protestantes, foi substituída pela de Júpiter ou pela de Baco.

Significados

(…) o Magnetismo universal, a quintessência, a religião, a inspiração.

Dever, moralidade, consciência, influência de Júpiter.

Autoridade moral, sacerdócio social, observação do decoro, respeitabilidade, ensinamento, conselhos imparciais, benevolência, generosidade indulgente, perdão. Mansidão.

(…) sentencioso, moralista rigoroso, professor que exerce uma autoridade excessiva sobre sua classe.

Para o homem, a obrigação de se reportar em suas ações aos ensinamentos divinos e de se subordinar às leis divinas.

(…) aquele que recebe a inspiração divina, julga e ensina com equidade absoluta.

Uma forma ativa da inteligência humana, equilíbrio.

NADOLNY, Isabelle. História do TarôUm estudo completo sobre suas origens, iconografia e simbolismo. Ed. Pensamento, 2022, pág. 215-217.

O Imperador

(…) vem do latim imperator. Trata-se do título dado a partir do imperador Augusto (63 a.C.-14 d.C.) ao detentor do poder supremo no Império Romano.

Sobre o Imperador

(…) apesar desse título bastante concreto, temos aqui uma fiqura alegórica que representa o poder absoluto no mundo. Inicialmente, tem uma barba e é de meia-idade. A partir da ldade Média, assim costumava ser representado Carlos Magno, o imperador por excelên cia. (…) o escudo amarelo com a águia em preto é clara mente o brasão do Sacro Império Romano-Germanico.

Desde a Antiguidade, a águia é o pássaro associado ao poder. o pássaro dos reis, o rei dos pássaros; é o atributo de Zeus. Por essa razão, torna-se o emblema de César e um importante simbolo militar do Império Romano.

(…) o globo pode ser suficiente: trata-se de um símbolo de poder exclusivo do imperador, pois representa o globo terrestre, o mundo que o imperador segura nas mãos… (…) “Pelo dom de Deus, augusto imperador do mundo, senhor dos senhores do mundo”. Nunca veremos um rei segurando esse globo. Em contrapartida, o cetro é um atributo partilhado com os reis, como símbolo de poder, e tem por origem o bas- tão de comando. A coroa, por sua vez, outro atributo em comum com os reis, é fechada nesse caso. (…) as pernas cru- zadas também caracterizam os homens de poder, sejam eles reis ou imperadores. No exercício de determinadas funções, elas simbolizam a força judiciária dos reis. Ao que parece, o uso provém da posição prescrita em ritual para os altos magistrados no antigo direito alemão. Desse modo, em um código antigo, lê-se: “O juiz deve sentar-se em seu assento magistral como um leão em fúria e colocar a perna direita sobre a esquerda. De maneira mais ampla, poderia simbolizar um monarca em ação no exercicio de seu poder quando se enfurece, quando condena um culpado ou apresenta uma espada a um cavaleiro.

Significados

(…)”O Imperador significa apoio.”

(…) a forma, o fogo, a cruz filosófica. Sentido fisico, a proteção, a vontade.

Firmeza, positivismo, poder executivo, influência de Saturno e Marte.

Direito, rigor, certeza, imobilidade, realização, energia perseverante, vontade inabalável, execução do que foi decidido.

O Imperador representa as energias materiais necessárias ao homem para dar as suas criações fugazes uma realidade momentânea.

(…) ação e tem o poder de realização,é uma carta que traz contribuições práticas e conselhos úteis.

Inteligência equilibrada, os bens passageiros, a força passageira. Assinatura de contrato, fusão de sociedades, situação conciliada.

NADOLNY
, Isabelle. História do TarôUm estudo completo sobre suas origens, iconografia e simbolismo. Ed. Pensamento, 2022, pág. 211-214.

A Imperatriz

(…) no caso da Imperatriz só se pode dizer uma coisa: ela é a esposa do Imperador. Do ponto de vista histórico e na mentalidade da época, ela não tem outros significados importantes.

(…) poderíamos evocar a condição da mulher nas épocas medieval e moderna: uma mulher só tem valor em relação à família da qual provém e por aquilo que leva à família à qual se une.

(…) todas as mulheres de famílias nobres dessa época, eram desti- nadas a se casar já na puberdade com um esposo muitas vezes mais velho do que elas. segundo os acordos vantajosos para ambas as famílias. Era preciso desposá-las desde cedo. dados os riscos ligados à procriação (uma mulher mais velha teria menos chances de ter filhos saudáveis, e 30 anos na época já era uma idade bastante avançada). Há registros de matrimônios com meninas de 9 anos. Em seguida, a vida de uma imperatriz consistia em duas coisas, dar à luz e ser vista.

Houve imperadoras extraordi nárias, que governaram de fato. A mais célebre foi Maria Teresa da Austria (1717-1780) mas na maior parte do tempo, como muitas princesas da época, elas não fizeram história.

Significados divinatórios

“Significa que os males vêm para bem ou que aquilo que nos prejudicou se tornará ou se torna útil para nós.

(…)a geração,ação, iniciativa.

Sabedoria, discernimento, idealidade, influência intelectual do Sol.

Compreensão, inteligência, instrução, charme, afabilidade, elegância, dis- tinção gentileza. Dominação pela mente. Civilização.

Afetação, pose, pedantismo, vaidade, pretensão, desdém.

A Imperatriz representa a força fecunda da matéria colocada à disposição do homem para suas criações. A força passiva do mundo matéria.

Penetração na matéria pelo conhecimento das coisas práticas.

Pensamento fecundo.

NADOLNY, Isabelle. História do TarôUm estudo completo sobre suas origens, iconografia e simbolismo. Ed. Pensamento, 2022, pág. 209-211.