Não mais Cristão, mas Cristo

“Quem alcança a gnosis torna-se “não mais cristão, mas Cristo” ” Assim sendo, podemos observar que esse gnosticismo tinha um significado maior que um movimento de protesto contra o cristianismo ortodoxo. O gnosticismo também incluía uma perspectiva religiosa que, de modo implícito, opunha-se ao desenvolvimento do tipo de instituição na qual se converteu a antiga Igreja católica. Aqueles que esperavam “tornarem-se Cristo” possivelmente não reconheceriam as estruturas institucionais da igreja -seus bispos, padres, cre- dos, cánones ou rituais – como detentoras da autoridade final.

PAGELS, Elaine. Os Evangelhos Gnósticos. Editora Objetiva, 1979, pág. 152.

Capítulo: 6- Gnosis: Autoconhecimento Como Conhecimento de Deus.

Nós Somos Seus Pastores

(…) Eles não perceberam que ela possuía um corpo espiritual invisível; pensam: “Nos somos seus pastores, dela a quem alimentamos.” No entanto, não perceberam que ela conhece outra forma que está escondida deles. Esta, seu verdadeiro pastor lhe ensinou pela gnosis. *(Ibid., 31.30-33.3, em NHL 282)

“Ao usar o termo comum para bispo (poimen, “pastor”), o autor refere-se, aparentemente, aos membros do clero: eles não sabiam que os cristãos gnósticos tinham acesso direto a Cristo, o verdadeiro pastor da alma, e não precisavam de sua liderança.”

PAGELS, Elaine. Os Evangelhos Gnósticos. Editora Objetiva, 1979, pág. 128.

Capítulo: 5- Qual é a “Verdadeira Igreja”?

Hereges- Campo de Rebeldes

“(…) prontos a falar, com sinceridade, de alguns aspectos de sua crença, “Isso não é assim”, “Tenho uma visão diferente”. “Não admito isso“.

Tertuliano adverte que esse questionamento leva à heresia: “Essa norma (…) foi ensinada por Cristo e não causa entre nós perguntas além daquelas que as heresias introduzem e que convertem os homens em hereges!” Também destaca que os hereges não se restringem às Escrituras do Novo Testamento: acrescentam outros escritos ou desafiam a interpretação ortodoxa de textos-chave.” Mais tarde, como já observado, ele condena os hereges de serem “um campo de rebeldes” que se recusam a submeter-se à autoridade do bispo. Solicitando uma ordem estrita de obediência e submissão, conclui que a “evidência de uma maior disciplina que existe entre nós é prova adicional da verdade”.

PAGELS, Elaine. Os Evangelhos Gnósticos. Editora Objetiva, 1979, pág. 124.

Capítulo: 5- Qual é a “Verdadeira Igreja”?

O Jesus Humano

“Por fim, nessa descrição da vida de Cristo e de sua paixão, o ensinamento ortodoxo oferece meios de interpretar elementos fundamentais da experiência humana. Ao rejeitar a visão gnóstica de que Jesus era um ser espiritual, a ortodoxia insiste em que ele, como o resto da humanidade, nasceu, viveu com uma família, sentiu fome e cansaço, comeu e bebeu vinho, sofreu e morreu. Reiteram ainda que ele ressuscitou como um ser corpóreo. Aqui, mais uma vez, como vimos, a tradição ortodoxa implicitamente afirma que a experiência da materialidade do ser é o fato central da vida humana. O que fazemos fisicamente – comer e beber, ter vida sexual ou evitá-la, preservar a vida ou renunciar a ela -, todos são elementos vitais para nosso desenvolvimento religioso. Mas os gnósticos que consideram a parte essencial de cada um de nós como o “espírito interno” rejeitam essa experiência física, agradável ou dolorosa, encarando-a como um aturdimento da realidade espiritual- na verdade, uma ilusão. Portanto, não é surpreendente que inúmeras pessoas identifiquem-se mais com os ensinamentos ortodoxos do que com o “espírito incorpóreo” da tradição gnóstica. Não apenas os mártires, mas todos os cristãos que sofreram ao longo de 2 mil anos, que temeram a morte e morreram, sentem sua experiência legitimada na história do Jesus humano.”

PAGELS, Elaine. Os Evangelhos Gnósticos. Editora Objetiva, 1979, pág. 115.

Capítulo: 4- A Paixão de Cristo e a Perseguição aos Cristãos.

Por que a Visão Ortodoxa do Martírio Prevaleceu?

Por que a visão ortodoxa-do martírio- e da morte de Cristo como modelo – prevaleceu? Eu sugiro que a perseguição impulsionou a formção de uma estrutura eclesiástica organizada, que se desenvolveu no final do século II. Para posicioná-la em um contexto contemporâneo, consideremos qual é o recurso que resta para dissidentes confrontados com um sistema político forte e poderoso: divulgar casos de violência e injustiça para angariar o apoio público mundial.

(…)

Pressionados pelo perigo comum, membros de grupos dispersos no mundo inteiro cada vez mais trocavam cartas e visitavam diversas igrejas. Relatos desses mártires, em geral obtidos nos registros de seus julgamentos e em depoimentos de testemunhas, circulavam entre as igrejas na Ásia, África, Roma, Grécia, Gália e Egito. Por meio dessa comunicação, membros das igrejas mais antigas e diversificadas conscientizavam-se das diferenças regionais como obstáculos pleitear a participação em uma igreja católica. Como já mencionado, Irineu insistia em que as igrejas no mundo inteiro deveriam concordar com todos os pontos vitais da doutrina, mas ficou chocado quando Vitor, bispo de Roma, tentou dar mais uniformidade às igrejas regionais. Em 190, Vitor pediu aos cristãos na Ásia Menor para abandonarem sua prática tradicional de celebrar a Páscoa e, cm vez disso, agirem segundo o costume romano – ou então teriam de desistir de seu pleito de serem “cristãos católicos”. Ao mesmo tempo, a igreja romana estava compilando a lista definitiva de livros eventualmente aceitos por todas as igrejas cristãs. Ordens estratificadas crescentes de hierarquia institucional consolidaram as comunidades internamente e regularizaram a comunicação entre, como Irineu chamava, “a Igreja católica dispersa no mundo inteiro, até mesmo nos confins do mundo” uma rede de grupos tornando-se cada vez mais uniformes em doutrina, ritual, cânones e estrutura política.”

PAGELS, Elaine. Os Evangelhos Gnósticos. Editora Objetiva, 1979, pág. 112.

Capítulo: 4- A Paixão de Cristo e a Perseguição aos Cristãos.

Oposição de Heráclio ao Martírio

“Contudo, Heráclio adotou uma atitude em relação ao martírio que divergia totalmente da posição de seus contemporâneos ortodoxos. Não demonstrava nenhum entusiasmo pelo martírio, nem pela valorização da “gloriosa vitória” proporcionada pela morte. Acima de tudo, jamais sugeriu que o sofrimento dos crentes imitava o de Cristo. Já que só o elemento humano de Cristo vivenciou a paixão, isso indica que o fiel, também, sofre apenas na esfera humana, enquanto o espírito divino transcende o sofrimento e a morte. Aparentemente, os valentinianos consideravam a temunha de sangue” do mártir em segundo plano se comparada a uma superior testemunha gnóstica de Cristo ponto de vista que enfureceria Irineu, pois nele estava implícito que os gnósticos “demonstravam desprezo” pelos mártires e desvalorizavam o que ele considerava o “extremo sacrifício”.

PAGELS, Elaine. Os Evangelhos Gnósticos. Editora Objetiva, 1979, pág. 110-111.

Capítulo: 4- A Paixão de Cristo e a Perseguição aos Cristãos.

Confessar Cristo

Heráclio reflete sobre a questão: O que significa “confessar Cristo”? Ele explica que as pessoas confessam Cristo de diferentes maneiras. Algumas confessam Cristo com sua fé e com -sua conduta cotidiana. No entanto, a maioria leva em conta apenas o segundo tipo de confissão – a confissão verbal (“Eu sou cristão”) diante de um magistrado. Esta última, diz, é a que “a maioria” (cristãos ortodoxos) julga ser a única confissão. Mas, Herádio observa, “mesmo os hipócritas podem fazer essa confissão. O que se deseja universalmente de todos os cristãos, afirma, é o primeiro tipo de confissão; o segundo é necessário para alguns, mas não para todos. Discípulos como Mateus, Filipe e Tomé nunca se “confessaram” perante magistrados; ainda assim, declara, confessaram Cristo com altivez, “com fé e conduta durante toda a vida”.

PAGELS, Elaine. Os Evangelhos Gnósticos. Editora Objetiva, 1979, pág. 109.

Capítulo: 4- A Paixão de Cristo e a Perseguição aos Cristãos.

Posicionamento dos Gnósticos Sobre o Martírio

“Que posicionamentos os gnósticos assumiram diante do martírio, e em que bases? Os textos de Nag Hammadi mostram que suas opiniões divergiam muitíssimo. Alguns o defendiam; outros o repudiavam por princípio. Seguidores de Valentino tinham uma posição mediadora entre os dois extremos. Mas um fato é claro: em cada caso, a atitude em relação ao martírio correspondia à interpretação do sofrimento e da morte de Cristo.

(…) enquanto alguns gnósticos afirmam a crença na paixão de Cristo e expressam entusiasmo pelo martírio, outros negam essa realidade e criticam esse entusiasmo. O Testemunho da Verdade declara que os entusiastas do martírio não sabem “quem é Cristo”.

(…) o martírio assegura a salvação: se fosse assim tão simples, diz, qualquer pessoa confessaria sua fé em Cristo e seria salva! Aqueles que vivem com essas ilusões

…são mártires [vazios], já que testemunham só [a] si mesmos. (…) Quando são “aperfeiçoados” em virtude da morte sob (martírio), eles pensam: “Se nos entregamos à morte pelo bem do Nome, seremos salvos.” Essas questões não se sucedem dessa forma. (…) Eles não têm a Palavra que oferece [vida].”

Esse autor gnóstico critica pontos de vista específicos do martirio familiares às fontes ortodoxas. Primeiro, censura a convicção de que a morte sob martírio oferece perdão para os pecados, uma visão expressa, por exemplo, no relato ortodoxo do martírio de Policarpo “Ao sofrer durante uma hora ele obteve a vida eterna.” Tertuliano também declarou que desejava sofrer “para obter total perdão de Deus, so dar em troca seu sangue”. Segundo, o autor ridiculariza os teólogos ortodoxos que, como Inácio e Tertuliano, concebem o martírio como uma oferenda a Deus e pensam que Deus deseja o “sacrificio humano”: essa crença converte Deus em um canibal. Terceiro, ataca aqueles que acreditam que o martírio assegura a ressurreição. Rústico, o juiz romano perguntou a Justino poucos momentos antes de ordenar sua execução: “Ouça, você é considerado um homem culto (…) você supõe que ascenderá ao céu?” Justino respondeu: “Eu não suponho, ao contrário, tenho certeza e estou completamente persuadido disso.” Mas o Testemunho da Verdade assinala que esses cristãos estavam apenas “destruindo-se” enganavam-se ao pensar que Cristo compartilhava a mortalidade deles, quando, na verdade, em razão de seu poder divino, era imune ao sofrimento e à morte:

O Filho do Homem [é] um ser imortal, [sendo] imune à transitoriedade. (…) ele desceu ao mundo dos mortos e realizou feitos poderosos. Ressuscitou os mortos (…) e também eliminou suas deficiências humanas e, assim, o manco, o paralítico e o mudo, (e) o possuído pelo demônio ficaram curados. (…) Por essa razão ele [destruiu] sua carne na [cruz] de onde [pendia]. *(Testemunho da Verdade 30.18-20; 32.22-33.11, em NHL 408)

PAGELS, Elaine. Os Evangelhos Gnósticos. Editora Objetiva, 1979, pág. 102-105.

Capítulo: 4- A Paixão de Cristo e a Perseguição aos Cristãos.

Condenando como Blasfêmia

“(…) Essa declaração conclui sua crítica detalhada à interpretação
de Valentino sobre a paixão de Cristo. Condenando como blasfêmia sua alegação de que só a natureza humana de Cristo sofreu, ao passo que sua natureza divina transcendeu o sofrimento, Irineu insiste em que

o mesmo ser que foi preso e sofreu, e verteu seu sangue por nós, era ao mesmo tempo Cristo e o filho de Deus (…) e ele tornou-se o Salvador daqueles que morreriam por terem co nfessado sua fé nele. *(Ibid., 3.16.9-3.18.4. Ênfase acrescentada.)

Na verdade, acrescenta, “se alguém supõe que existam duas naturezas em Cristo”, a que sofreu é certamente superior àquela que escapou ao sofrimento, tendo sido poupada da injúria e do insulto.

PAGELS, Elaine. Os Evangelhos Gnósticos. Editora Objetiva, 1979, pág. 98-99.

Capítulo: 4- A Paixão de Cristo e a Perseguição aos Cristãos.

Julgamento Cristão

“Incumbidos do desagradável dever de ordenar execuções por descumprimento das normas vigentes, os funcionários romanos quase sempre tentavam persuadir o acusado a preservar sua vida. Segundo relatos contemporâneos (ca.
165), depois que o idoso e reverenciado bispo Policarpo de Esmirna, na Ásia Menor, foi preso pela polícia,

…o governador tentou persuadi-lo a renegar suas convicções dizendo: “Respeito sua idade”, e outras coisas similares que eles usualmente dizem; “Jure pelo espírito do imperador. Redima-se. Diga ‘Abaixo os ateus!”‘ Policarpo, com uma expressão solene, olhou para a multidão de pagãos sem lei presente ao estádio (…) e disse: “Abaixo os ateus!”O governador persistiu e falou: “Jure e eu o deixarei partir. Amaldiçoe Cristo!” Mas Policarpo respondeu:-”Durante 86 anos fui seu servo e Ele nunca me causo mal (…) Se o senhor se ilude que jurarei pelo espírito do imperador, como pediu,e se finge não saber quem eu sou, ouça e lhe direi simplesmente: Eu sou cristão.” *(“Martírio de São Policarpo” 9-10, em MÁRTIRES CRISTÃOS, 9-11. Ênfase acrescentada)

(…)

Esse comportamento provocou o desprezo do estóico imperador Marco Aurélio, que considerava os cristãos uns exibicionistas mórbidos e desencaminhados. Atualmente, muitas pessoas podem concordar com esse julgamento, ou tratar os mártires como masoquistas neuróticos. Contudo, para os judeus e os cristãos nos séculos I e II, o termo tinha uma conotação diferente: martus significava em grego “testemunha”. No Império Romano, como em muitos países do mundo atual, membros de alguns grupos religiosos caem sob suspeita dos governos como organizações que promovem atividades criminosas ou traiçoeiras. As pessoas que, a exemplo de Justino, ousavam protestar publicamente contra o tratamento injusto conferido aos cristãos nos tribunais, convertiam-se em alvos possíveis de ação policial. Aqueles que se viam nessa situação à época, como agora, a escolha era simples: pronunciar-se arriscando serem presos, torturados, submetidos a um julgamento falso, além de exílio ou morte, ou calar-se para preservar a vida. Seus companheiros de crença reverenciavam os que falavam, chamando-os de “confessores”, e respeitavam só os que eram condenados à morte como “testemunhas” (mártires).

Mas nem todos os cristãos confessavam. Muitos, no momento da decisão, escolhiam a opção oposta. Alguns consideravam o martírio uma tolice, uma perda de uma vida humana e, assim, contrário ao desejo de Deus. Argumentavam que “Cristo, ao morrer por nós, foi executado para que não tivéssemos o mesmo destino”.”

PAGELS, Elaine. Os Evangelhos Gnósticos. Editora Objetiva, 1979, pág. 93.

Capítulo: 4- A Paixão de Cristo e a Perseguição aos Cristãos.