Descida da Cruz

“O Corpo de Jesus foi transportado horizontalmente, mas tal qual se achava na cruz, até a proximidade do túmulo; somente ali é que foi depositado na Mortalha.

(…) se as coisas se tivessem passado de outra forma, a parte posterior do Sudário teria ficado inundada de sangue durante o transporte.

A maior parte do sangue se perdeu (…) Dele não restou senão o que se coagulou sobre a pele, pouco a pouco, enquanto escorria. Depois que o corpo foi assim transportado nu e colocado, após o transporte, na Mortalha, recebeu unicamente a impressão dos coágulos de sangue, forma dos sobre a pele das costas durante o trajeto.

De que maneira então foi Jesus Cristo transportado sem que lhe tocassem o corpo?

Sobreveio a morte, como propôs Dr. Le Bec e como confirmou, por observação experimental, Dr. Hynek, após contrações tetânicas de todos os músculos. Essas dolorosas cãibras generalizadas constituem aquilo que chamamos de tetania. Esta nada tem a ver (insisto para os não médicos) com o tétano, doença infecciosa que produz cãibras análogas. Essa tetanização acabou por atingir os músculos respiratórios, de onde a asfixia e a morte. O condenado não podia escapar à asfixia senão erguendo-se sobre os cravos dos pés, para diminuir a tração do corpo sobre as mãos; cada vez que quisesse respirar mais livremente ou falar, deveria ele assim se erguer sobre os cravos dos pés, é verdade que à custa de outros sofrimentos.

(…)

Vimos, além disso, que o duplo fluxo de sangue do punho cor responde a esta dupla posição, alternante, com suas duas angulações um pouco divergentes. Nestas condições a rigidez cadavérica deveria ser extrema, como com os doentes que vêm a morrer de tétano: o corpo estava rígido, fixado na posição da crucifixão. Podia ser levantado sem que se dobrasse, seguro apenas pelas duas extremidades, como um corpo em catalepsia.

Dado isto, é possível: a) despregar os pés arrancando os cravos do stipes; b) abaixar o patibulum com o corpo rígido; c) transportar o conjunto sem nenhum artifício: dois homens sustentando as duas extremidades do patíbulo e um outro sustentando os pés, ou até só o pé direito que ficara por trás, na altura do tendão-de-Aquiles e do calcanhar. Esta do corpo foi assim a única tocada durante o transporte.

3.- Ora, na impressão do pé direito sobre o Sudário, verifica-se precisamente: a) que a parte posterior do calcanhar está mal marcada, o que contrasta com o resto da impressão plantar, bastante nítida; isto faz parecer, à primeira vista (como já o notamos), que o pé é mais curto do que na realidade; b) que o fluxo de sangue que desceu, durante o transporte horizontal, da chaga plantar para o calcanhar, não atingiu a parte posterior deste, parte mal-marcada no Sudário. Explica-se isto, facilmente, se esta parte estivesse de fato coberta pelas mãos do transportador, que sujaram o calcanhar e impediram o sangue de correr até lá.

É provável que tivessem sido cinco os transportadores, e não três para carregar aquele corpo de cerca de 80 quilos e o pesado patíbulo que pesava não menos de 50 quilos. Os dois suplementares sustentavam o tronco, por meio de um pano torcido para formar uma cinta, que atravessaram por sob a parte inferior do tórax, na altura dos rins,

(…) O fluxo de sangue que se coagulou, transversalmente nas costas, está constituído por meandros irregulares, várias vezes bifurcados e depois se reunindo de novo, o que está pouco de acordo com um fluxo regular de sangue que não tenha tocado em coisa alguma, 3º- Ao contrário, um pedaço de pano irregularmente torcido, sustentando a parte inferior do tórax, deve necessariamente ter-se impregnado completamente de sangue durante o transporte; do qual pequena parte se coagulou, irregularmente, à superfície da pele que podia atingir diretamente, através das pregas do tecido, nos pontos em que este não a comprimia.

A rigidez cadavérica, que permitiu que se transportasse o corpo sem que se dobrasse sob a influência de seu peso, não é um obstáculo que impeça estando o cadáver colocado na Mortalha despregadas as mãos e retirado o patibulumque se levassem os braços da abdução para a adução, e se cruzassem as mãos diante do púbis A experiência nos mostra que não há rigidez cadavérica que não se consiga vencer com um pouco de força, ainda que tenha sido bastante intensa para resistir ao peso do corpo.

1) Os pés são despregados do “stipes”, havendo um só crave a arrancar da madeira.

2) Abaixa-se o patíbulo com o corpo, sem despregar as mor O conjunto é transportado em bloco, sem nenhum artificio, por cinco carregadores, dos quais só um toca o corpo na altura dos calcanhares; outros dois sustentam o dorso com um pano enrolado para uma cinta, que se impregna de sangue. Os dois últimos levam as extremidades do patíbulo.

3) O corpo só foi colocado no Sudário no fim do transporte, durante o qual uma pequena pane do sangue se coagulou transversalmente, nas pregas da cinta, sobre a pele das costas. Esses coágulos em forma de meandros irregulares darão lugar ao “fluxo transversal posterior” ao se decalcarem, ainda frescos, sobre o Sudário.

4) Colocam o corpo no Sudário (provavelmente sobre a pedra chamada da unção). No último instante devem ter cessado de sustentar o dorso com a cinta que, embebida de sangue, teria manchado muito o Sudário.

5) Despregam as mãos, retiram o patíbulo e puxam os membros superiores, cruzando as mãos diante do púbis.

6) Dobram em seguida a outra metade do Sudário, por cima da cabeça (“epi ten kephalen”), cobrindo a face anterior do corpo.

7) Deposição no túmulo.”

BARBET, Pierre. A Paixão de Cristo, segundo o cirurgião. São Paulo: Edições Loyola, 2014, pág. 158-161.

 

Chaga do Coração

“(…) O Lançado dado no lado direito atingiu a aurícula direita do coração, perfurando-lhe o pericárdio.

(Jo 19,33 s.)- “Ora, quando (os soldados) vieram a Jesus, como o vissem já morto, não lhe quebraram as pernas, mas um dos soldados lhe abriu o lado com a lança e, ato contínuo, saiu sangue e água”.

(…)

Mas limitemo-nos ao texto evangélico: um dos soldados feriu-lhe o lado com a lança, e logo saíram dali sangue e água. Pedi à anatomia e à experimentação a explicação deste texto, e agora vamos ouvi-la de tal como me responderam.

A Mortalha tem manifestamente os traços dessa chaga do lado esquerdo, o que quer dizer, sendo suas imagens inversas, que o cadáver a tinha do lado direito.

(…) o estigmatizado teria a chaga localizada do mesmo lado em que vê a chaga de Jesus crucificado. Em vez de propor teorias também científicas, prefiro confessar que isto ultrapassa o domínio da ciência e respeitar o mistério destes fenômenos.

(…)

Na parte superior da imagem sanguínea se distingue nitidamente, tanto no original como nas fotografias, uma mancha oval com o eixo maior um tanto oblíquo de dentro para fora e de baixo para cima, que dá, nitidamente, a impressão da chaga do lado, de onde saiu este sangue. Tem esta chaga 4,4 cm no eixo maior e 1,5 cm na altura. É dela que devemos procurar a localização exata para a transferir a outro corpo. Notemos, de passagem, que a relíquia do ferro de lança que se encontra no Vaticano tem 45 mm, em sua parte mais larga. As chagas são sempre mais estreitas do que os agentes perfurantes por causa da elasticidade da pele.

A extremidade interna da chaga está a 9,5 cm abaixo e um pouco para fora do mamilo, em uma horizontal que passa a 9 cm abaixo dele.

A) IN VIVO. RADIOGRAFIAS

(…) a lança escorregou sobre a sexta costela, perfurou o quinto espaço intercostal e penetrou na profundidade. Que encontrou em seguida? A pleura e o pulmão.

O lançaço foi, portanto, oblíquo e próximo da horizontal, o que é fácil de executar se a cruz, como penso, não fosse muito alta.

Esse golpe desferido ao coração pela direita, sendo sempre moral deveria constituir um dos golpes clássicos e ser ensinado nos exércitos romanos; tanto mais que o lado esquerdo estava normalmente protegido pelo escudo. Encontrei aliás, ao reler os “Comentários de César que a expressão “latus apertum – lado descoberto (desprotegido) era clássica para designar o lado direito.

Então a ponta se dirige naturalmente através da parte anterior, delgada, do pulmão direito e atinge, segundo as radiografias, após um trajeto de 8 cm, o bordo direito do coração envolvido pelo pericárdio.

Ora, aqui está o cerne da questão, a parte do coração que ultrapassa à direita o esterno é a aurícula direita. Essa aurícula, prolongada em cima pela veia cava superior e embaixo pela veia cava inferior, está sempre, no cadáver, cheia de sangue líquido.

(…)

Se o golpe tivesse sido desferido do lado esquerdo, teria atingido os ventrículos, que no cadáver estão vazios.

B) NO CADÁVER. EXPERIÊNCIAS

O sangue vem, portanto, naturalmente, do coração, e em tal quantidade não poderia vir senão dali. Mas de veio a água?

(…)

Era, portanto, a água líquido pericárdico. Pode-se supor que após aquela agonia excepcionalmente penosa, que foi a do Salvador, esse hidropericárdio fosse particularmente abundante e suficiente para que São João, testemunha ocular, tivesse podido ver claramente correr sangue e água. Para ele a serosidade não podia ser senão água, da qual tem toda a aparência.

(…)

Meu amigo Judica (…) Para ele, trata-se de “pericardite serosa traumática”. Essa pericardite fora provocada pelos golpes, pauladas e sobretudo pela flagelação atroz sofrida pelo tórax, no pretório. Tais violências poderiam bem provocar uma pericardite que, após estádio muito curto de hiperemia, não excedendo, muitas vezes, senão algumas horas, produz um derramamento seroso rápido e abundante.

OUTRAS HIPÓTESES

Sim! São João era bem clarividente. O que viu foi, sem dúvida, o sangue da aurícula e a água do pericárdio. 

(…)

O que aconteceu, agora, durante o transporte em posição horizontal, da Cruz para o Túmulo? Não esqueçamos que a chaga do coração é nitidamente lateral, está situada na região subaxilar. É muito provável que, nesta posição, o líquido pleural aflore a esta chaga e pelo lado direito, como o descrevi. Esta saída de sangue e serosidade foi favorecida pelas oscilações transversais, inevitáveis no transporte. Foi esta mescla hidroemática que se espalhou transversal mente na parte inferior das costas, no meio das pregas da faixa que suponho tenha sido usada no transporte. Uma tal diluição do sangue explica talvez o largo halo em volta, de coloração muito pálida, que envolve e ultrapassa para cima e para baixo os coágulos irregulares dia hemorragia posterior.”

BARBET, Pierre. A Paixão de Cristo, segundo o cirurgião. São Paulo: Edições Loyola, 2014, pág. 138-153.

 

Modalidades da Crucifixão

“C) MODALIDADES DA CRUCIFIXÃO

(…)

1°) Flagelação preliminar – Todo o condenado à morte devia ser, por lei, flagelado preliminarmente, quer fosse a execução feita pela cruz quer de outro modo: decapitação (Tito Lívio) ou fogo (Flávio José). Dela estavam isentos, segundo Mommsen, somente os senadores, os soldados e as mulheres que gozassem do direito de cidadania.

(…)

Esta flagelação, que primitivamente era aplicada sobre a cruz, passou, com o tempo, a ser aplicada no próprio local do tribunal. O condenado era ali atado a uma coluna (provavelmente com as mãos amarradas por sobre a cabeça. É a melhor maneira de imobilizar o condenado que não repousa senão sobre as pontas dos pés).

(…)

Despia-se o condenado para a flagelação. Era nu e flagelado que encetava sua marcha para o suplício, carregando seu patíbulo (Valério Máximo, Cícero).

(…) a flagelação necessitava o “flagrum”, instrumento especificamente romano. Compunha-se de um cabo curto ao qual estavam fixados grossos e compridos látegos, geralmente dois. A pequena distância de sua extremidade livre, estavam inseridas pequenas esferas de chumbo ou ossos de carneiro “tali”, como os que serviam para jogar “ossinhos”, que eram os astrágalos tirados das patas do carneiro.

Os látegos cortavam mais ou menos a pele, e as balas ou os ossinhos nela imprimiam profundas contusões. De onde se seguia uma hemorragia nada desprezível e um enfraquecimento considerável da resistência vital.

O número de golpes com o açoite era, segundo o direito judeu, rigorosamente limitado a 40. (…) Entre os romanos, a lei não conhecia outro limite senão a necessidade de não matar o condenado sob os golpes; era ainda necessário que ficasse com forças suficientes para carregar seu patíbulo e que morresse sobre a cruz (…)

2°) Carregamento da cruz – Portanto, o prévia e devidamente flagelado, fazia a pé, sem roupas e carregando seu patíbulo, o trajeto do tribunal ao local do suplício (…)

(…)  se encontra a expressão “patibulum ferre- carregar ou levar o patíbulo”. (…) O patíbulo era colocado sobre as espáduas e braços estendidos transversalmente, e em seguida amarrado nas mãos, braços e peito. Era, portanto, só o patíbulo que o condenado carregava.

(…)

O patíbulo sozinho devia pesar cerca de 50 quilos, e a cruz inteira devia ultrapassar os cem quilos. (…) o que carregava a cruz era precedido pelo “titulus”, um pedaço de madeira sobre o qual estava escrito o nome do réu e o crime pelo qual fora condenado. O título era, depois, fixado sobre a cruz.

3°) Modo da crucifixão- (…) Se, porém, a crucifixão for feita com cravos, é necessário desamarrar o condenado e deitá-lo por terra com as espáduas sobre o patíbulo, puxar-lhe as mãos e cravá-las sobre as extremidades do patíbulo. Depois é que será levantado o réu já pregado no patíbulo, e este será enganchado no alto do “stipes” (ou haste vertical). Isto feito, nada mais resta, senão pregar-lhe os pés diretamente sobre o “stipes”.

4°) Guarda militar – Toda execução se devia fazer legalmente com um aparato inteiramente militar, sob as ordens de um centurião (…) O exército, que já se havia encarregado da flagelação, fornecida a escola para conduzir o condenado do tribunal ao lugar do suplício. Era ainda da escolta que se recrutavam os carrascos para a crucifixão. Devia, por fim, o exército regular fornecer uma guarda que velasse ao pé da cruz a fim de impedir que amigos viessem arrebatar o supliciados à cruz.

(…)

5°) Sepultura e insepulturaEm geral, os cadáveres ficavam na cruz para servir de pasto às aves e animais selvagens.

(…)

No entanto, os corpos podiam ser reclamados pelas famílias que quisessem assegurar-lhes uma sepultura decente, parece até que a lei facilitava sem dificuldades nem taxas esta última graça.

(…)

Assim pois, quando a família pedia o cadáver, o carrasco devia antes de tudo ferir o coração. Como geralmente o carrasco era um soldado, o golpe devia ser executado com a arma que tinha em mão, uma lança ou um dardo. Veremos que esse golpe no coração dado pelo lado direito do peito estava certamente bem estudado e conheci do como infalivelmente mortal, na esgrima dos exércitos romanos Dava, pois, toda segurança sobre a morte real do condenado… e, se fosse o caso, a provocaria.”

BARBET, Pierre. A Paixão de Cristo, segundo o cirurgião. São Paulo: Edições Loyola, 2014, pág. 58-64.

 

Ressureição de Jesus

“Quando surgiu entre os apóstolos e Tomé quis tomar-lhe as mãos, isso foi possível devido justamente à faculdade ectoplásmica dos presentes, que lhe permitiu a materialização em corpo inteiro e o êxito da “voz direta”, sob os fulgores da luz sideral.

(…)

Pedro ficara bastante preocupado, depois que ouvira rumores de vândalos e criaturas embriagadas, a soldo do Sinédrio, que se propunham profanar o túmulo de Jesus e arrastar-lhe o corpo pelas ruas. Era intenção dos sacerdotes extinguir qualquer impressão favorável à doutrina e á pessoa de Jesus, evitando quaisquer demonstrações dramáticas que dessem vida e alento à tragédia da cruz. (…) Deste modo, Pedro resolveu pro curar José de Arimatéia e expor-lhe as suas desconfianças; e como o seu amigo também alimentava as mesmas preocupações, transferir o corpo de Jesus para outro local, desconhecido de todos.

Então, após verificarem que a cidade dormia, ambos dirigiram-se ao sepulcro e, munidos de roletes de lenho e alavancas, fizeram deslizar a pedra de entrada mediante esses gonzos improvisados. Em seguida, mudaram as vestes ensanguentadas de Jesus por novos lençóis limpos e incensados. Depois, no silêncio da noite, desceram a encosta do Calvário e sepultaram o corpo num túmulo desconhecido, abandonado no meio do capinzal e de ruínas esquecidas.

(…)

No entanto, Pedro e José de Arimatéia captaram as orientações do Alto e num empreendimento elogiável guardaram absoluto segredo até de Maria de Magdala e da mãe do Amado Mestre, apagando todos os vestígios da mudança.”

RAMATÍS. O Sublime Peregrino. Obra psicografada por Hercílio Maes. São Paulo: Ed. Conhecimento, 2020, pág. 256-257.

 

Sepultamento

“Releiamos, pois, nossa sinopse: estamos no Gólgota à nona hora, isto é, cerca das 3 horas da tarde, do dia 13 do mês de Nisan, provavelmente do ano 30 d.C.

Jesus inclinou a cabeça, na linha mediana, sobre o peito, no me mento escolhido por ele e entregou sua alma humana ao Pai, “et inclinato capite emisit spiritum“. Ora, o sábado começaria por volta das 6 horas, à primeira estrela, quando não mais se pudesse distinguir fio branco de um fio negro. E quantas coisas será preciso fazer nessas três horas! Os judeus, então (diz são João), como era a Preparação (véspera da Páscoa), para que os corpos não ficassem na cruz durante o sábado, pois era um grande dia de sábado, pediram a Pilatos que quebrassem as pernas um aos crucificados e que os retirassem dali.” (…) há 600 m do Calvário ao pretório, em ruas acidentadas, e que as idas e vindas vão ser muitas. Pilatos não estará certamente de muito bom humor para se apressar em receber esses judeus, que conseguiram arrancar-lhe pelo medo, uma condenação injusta; deve tê-los feito esperar. Entre tanto, concordou em enviar soldados munidos das barras de ferro necessárias. (…) O costume romano era deixar os condenados na cruz até a morte e lançá-los, em seguida, à vala comum, mas, por outro lado, a orientação de Roma era a de se adaptar aos costumes nacionais. Os soldados vieram pois (do pretório) e quebraram as pernas ao primeiro e ao outro que tinham sido crucificados com ele. Esse “crurifragium” os impede de se soerguer, apoiando-se nas pernas, para dessa forma diminuir a tração sobre as mãos. (…) que isto não passava de gesto regulamentar, indispensável para a entrega do corpo à família, que já dera os primeiros passos para requerê- lo.

(…)

Antes de continuar o estudo de nossos textos, seria oportuno procurar saber como os judeus sepultavam seus mortos. A primeira certeza que temos é que isto nada tinha de comum com o embalsama mento dos egípcios. Em toda a Bíblia, só encontramos duas mumificações: a de Jacó e a de José, mas isto mesmo no Egito, por quase egípcios. Jamais, em outra parte, se fala de tiras nem evisceração nem de natro (= carbonato de sódio). Nas catacumbas judaicas, as múmias são raríssimas (duas ao todo). Trata-se provavelmente de judeus da diáspora egípcia. Todos os outros corpos estão vestidos, como vamos ver Maimônide, médico judeu de Córdoba, do século XII, escreve: Depois de fechados os olhos e a boca do defunto, lavava-se o corpo, ungia-se com essências perfumadas e, em seguida, se enrolava em um tecido branco, no qual se encerravam ao mesmo tempo os aromas“.

(…)

Do ponto de vista histórico, parece tudo esclarecido: em uma primeira fase, envolviam o corpo na mortalha e depois o preparavam para a sepultura. Consistia isto em lavá-lo com água quente, seguida unção com essências perfumadas, como o bálsamo de nardo precioso de Maria Madalena na refeição de Betânia, ou os aromas que por levava para o túmulo, no dia da Ressurreição. Esta unção era feita por fricção. O verbo “aleiphein” empregado por Marcos (16,1) neste último episódio indica uma fricção com bálsamo ou óleo; é a mesma palavra que se emprega para a unção dos lutadores, antes das provas de estádio; não se trata de simples aspersão.

Vestido o cadáver, era levado ao sepulcro. Era este, às vezes, um buraco cavado na rocha (Lázaro, talvez), onde se descia por meio de degraus e que se cobria com uma laje. Quase sempre é uma caverna cavada pela mão do homem, compreendendo uma antecâmara e uma cela posterior onde, sobre um banco rochoso, se depositava o cadáver. pedra de disco, rolando em um canal, lhe obstruía a entrada. (…) Exigia o uso visitas ao defunto, pelo menos durante três dias (tinham os judeus muito medo da morte aparente). Foi assim que pôde Marta dizer a Jesus, com conhecimento de causa, a respeito de Lázaro, seu irmão: “Já cheira mal, pois já está ali há quatro dias“.

Voltemos agora a nossos textos e notemos, de início, que para Sinóticos nem em São João. E que o tempo urgia, além de não haver este primeiro sepultamento não há nem loção nem unção, nem nos nem água quente nem bálsamos para a unção.

(…)

A finalidade de João, nesta perícope, é provar a ressurreição de Jesus, dogma fundamental de toda a religião, elemento primordial da pregação apostólica. Ora, a presença da Mortalha no túmulo vazio parece dever fornecer uma prova irrefutável. (Se tivessem furtado o corpo, não teriam deixado a Mortalha, que seria o meio mais prático de o carregar.)

(…)

Podemos, portanto, concluir, após este árido e apaixonante estudo, que os quatro Evangelhos, ao se completarem mutuamente, estão em perfeito acordo. Jesus, por falta de tempo, foi colocado no sepulcro, na tarde de sexta-feira, após uma simples preparação para o sepultamento, apenas destinada a retardar a corrupção. Os discípulos, sem loção nem unção, encerraram seu corpo em u’a mortalha revesti da de panos impregnados de grande quantidade de mirra e de aloés. A preparação definitiva para a sepultura, que consistia em lavar o corpo e ungi-lo com aromas completamente diferentes, deveria ser feita pelas santas mulheres no domingo de manhã. No túmulo vazio, Pedro e João encontram os panos e a mortalha dobrada à parte.”

BARBET, Pierre. A Paixão de Cristo, segundo o cirurgião. São Paulo: Edições Loyola, 2014, pág. 164-180.

 

Preparo de Seu Sepultamento

“Ora Jesus, crucificado como um escravo, foi condenado por Pilatos sob a acusação de ter conspirado contra o Estado romano. E, no entanto, escapou à vala comum. Seu corpo foi reclamado por um homem-influente, José de Arimateia, um discípulo secreto, que o envolveu num lençol novo, limpo, e o enterrou num túmulo que tinha comprado para si, próximo do lugar da crucifixão. Estes são os dados precisos que nos chegaram através do Evangelho de São João.

(…)

Mas há ainda um outro aspecto que parece quadrar com o que nos dizem os Evangelhos: a abundância de vestígios de sangue, a indicar claramente que o corpo não foi lavado antes de ser amortalhado, ao contrário do que era costume entre os judeus. (At 9,37).

O corpo de Jesus recebeu sinais claros de respeito e distinção, como ser envolvido num lençol de linho e colocado num sepulcro novo, não em vala comum. No entanto, omitiram algo elementar entre os judeus: lavar o corpo antes de sepultá-lo.

Vê-se assim a causa da omissão. Estava prestes a começar o grande Sábado pascal em que, como aliás em qualquer sábado, que é o dia santo dos judeus, se proibiam rigorosamente os trabalhos manuais. Por isso era preciso enterrar Jesus antes do pôr do sol da sexta-feira, e por isso não puderam lavar o corpo do Senhor, não havia tempo.

Isto explica também que, no primeiro dia útil, isto é, o domingo, as santas mulheres tivessem ido ao sepulcro, levando os aromas que haviam preparado, a fim completar o trabalho deixado a meio na sexta-feira santa.”

ESPINOSA, Jaime. O Santo Sudário. São Paulo: Quadrante, 2017, pág. 50.

Sudário de Turim

“Em sentido estrito, a palavra sudário designa um pequeno pano, do tamanho de um guardanapo, usado para enxugar o suor – daí o termo «Sudário» » e que servia também para manter fechada a boca de um cadáver, passando-o pelo alto da cabeça e atando as extremidades debaixo do queixo.

Por extensão, passou-se a designar com o mesmo nome uma grande peça de tecido usada em alguns lugares e épocas para envolver o defunto prestes a ser enterrado. No tempo de Jesus, tanto os romanos como os judeus com frequência os seus mortos envolvendo-os pela frente e por trás nesse lençol fúnebre, antes de os depositar em câmaras mortuárias. Mais exatamente, o Sudário de Turim deveria, pois, ser conhecido como o Lençol de Turim.”

(…)

“Com efeito, os textos evangélicos relatam que Jesus, depois de ter sido flagelado, coroado de espinhos e crucificado, foi envolvido, após a morte, num lençol limpo e depositado num túmulo novo que José de Arimateia havia manda do cavar para si numa rocha (Mt 27, 57-60).”

ESPINOSA, Jaime. O Santo Sudário. São Paulo: Quadrante, 2017, pág. 06-07.

Pano de Linho

“(…) Sabe-se que ele, um homem rico, possuía um grande túmulo esculpido numa rocha e que este túmulo, “onde nenhum corpo humano ainda fora depositado”, estava localizado num jardim, também pertencente a José, “próximo do local da Crucificação. Não se pode, porém, ignorar o simbolismo aqui contido. O túmulo – onde ninguém ainda fora depositado numa grande rocha, num jardim, era mais que um túmulo comum. Há muitos séculos, as escolas de mistérios vêm usando esses túmulos onde os corpos dos seus grandes líderes são depositados apenas para serem ressuscitados. O túmulo onde Jesus foi depositado por José era parcialmente reservado à escola secreta. (…) José e seu amigo Nicodemos “envolveram o corpo de Jesus num pano de linho [sabendo] que Jesus se ergueria do túmulo”.

De passagem, talvez seja interessante notar que este mesmo José de Arimatéia foi mandado para a Grã-Bretanha pelo Apóstolo S. Filipe, por volta do ano 63, e instalou-se em Glastonbury, como consta dos registros históricos tradicionais, com alguns outros discípulos da escola secreta. Ali, ele deu curso à missão especial de que o incumbiu Jesus, missão que representava o lançamento das bases dos ensinamentos e práticas das doutrinas secretas.

LEWIS, H. Spencer. As Doutrinas Secretas de Jesus. Rio de Janeiro: Biblioteca Rosacruz, V. II, Ed. Renes, 1983, p. 149-150.

Fatos Secretos

“Quando entraram, encontraram Jesus descansando tranquilamente, recobrando rapidamente as forças e a vitalidade. Uma hora depois, a tempestade havia serenado o suficiente para que os Essênios O escoltassem para fora do sepulcro.

Jesus havia usado todos os poderes do Seu ser, pela per feita harmonização com o Cósmico, para restaurar a força e a consciência em todas as partes de Seu corpo e em todas as Suas faculdades grandemente desenvolvidas. Por isto puderam os Essênios colocar Seu corpo sobre um potro e cobri-Lo com mantos pesados. Dirigiram o potro com sua preciosa carga através da chuva leve e pela densa escuridão até um local afastado, pertencente à Fraternidade, a pouca distância dos muros da cidade.”

LEWIS, H. Spencer. A Vida Mística de Jesus. Curitiba, PR: AMORC, 2001, p. 247.

Jesus Escapou da Crucificação?

NOTA DO EDITOR:

“No Semanário Ilustrado da India (7 de julho de 1974), a seguinte legenda acompanhou a fotografia de um templo antigo: “O TUMULO DE JESUS”, Srinagar. Há oitenta e três anos, Mirza Ghulam Ahmad Qadiani declarou que Cristo não foi crucificado c ressuscitado na forma que os cristãos acreditam, nem subiu aos Céus onde continua a viver, como acreditam os muçulmanos. O “profeta” do Punjabi apoiou suas afirmações como a na pesquisa de velhos textos e na sua própria interpretação do Corão. Ele tentou provar que Cristo escapou da crucificação e foi para a Caxemira, onde morreu na idade de 120 anos. Nehru, em sua obra “Glimpses of World History” (Relances da História Mundial) escreve: “Em toda a Ásia Central, em Caxemira, Ladakh e até no Tibete e mais para o norte, continua a existir uma forte crença de que Jesus ou Isa por ali viajou Não é improvável que ele o tenha feito.”

LEWIS, H. Spencer. A Vida Mística de Jesus. Curitiba, PR: AMORC, 2001, p. 244.